segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Alcance da Lei

    A lei pode alcançá-lo - O Anão e o Ladrão
  Thomas Nast, Harper´s Weekly, 6 de janeiro de 1872

No alto da cidade,
onde os prédios pensam que são eternos,
um homem pequeno rouba pão.

Outro,
de cartola invisível e gravata herdada,
desvia rios.

A lei passa,
de toga, pesada,
olhando primeiro para o chão.

Ali, encontra o anão:
tão visível,
tão alcançável,
tão culpado.

Ergue-se firme,
cumpre seu dever com rigor geométrico,
e o prende.

Depois olha para cima.

O gigante
não cabe no código,
não cabe na cela,
não cabe no gesto.

É grande demais
ou íntimo demais
ou necessário demais
à engrenagem que sustenta a própria lei.

A lei hesita —
coisa rara.

Consulta papéis,
artigos,
precedentes,
silêncios.

O gigante sorri,
não por coragem,
mas por costume.

E a cidade segue:
o pão é crime,
o rio é negócio.

E alguém anota,
em letra miúda,
que a justiça foi feita.

Nenhum comentário: