No alto da cidade,
onde os prédios pensam que são eternos,
um homem pequeno rouba pão.
Outro,
de cartola invisível e gravata herdada,
desvia rios.
A lei passa,
de toga, pesada,
olhando primeiro para o chão.
Ali, encontra o anão:
tão visível,
tão alcançável,
tão culpado.
Ergue-se firme,
cumpre seu dever com rigor geométrico,
e o prende.
Depois olha para cima.
O gigante
não cabe no código,
não cabe na cela,
não cabe no gesto.
É grande demais
ou íntimo demais
ou necessário demais
à engrenagem que sustenta a própria lei.
A lei hesita —
coisa rara.
Consulta papéis,
artigos,
precedentes,
silêncios.
O gigante sorri,
não por coragem,
mas por costume.
E a cidade segue:
o pão é crime,
o rio é negócio.
E alguém anota,
em letra miúda,
que a justiça foi feita.

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