DIAP projeta baixa renovação e aponta maior força para PT-PCdoB-PV, PL e PP-União. Entre os 31 deputados gaúchos, 26 tentam continuar no cargo. Nas chapas menores, há risco de não eleger ninguém
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
A disputa pela Câmara no RS começa dentro das próprias chapas
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Quando a fé entra na urna
Da mobilização católica na
Constituinte de 1933 à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida em 2026, a
religião nunca foi um detalhe na história eleitoral brasileira. Ela não explica
sozinha o voto, mas ajuda a definir os afetos, os receios e as fronteiras
morais da disputa
O Brasil é um Estado laico, mas jamais foi um
país eleitoralmente indiferente à religião. A separação constitucional entre
Estado e igrejas não eliminou da política as crenças, os valores, os símbolos e
as redes de influência que atravessam a vida religiosa brasileira. Ao
contrário, em períodos de maior tensão moral ou de campanhas muito polarizadas,
a fé costuma sair do plano privado e entrar de vez na arena pública.
Os
números ajudam a explicar por quê. Segundo o Censo 2022, 100,22 milhões de
brasileiros se declararam católicos, o equivalente a 56,7% da população com 10
anos ou mais. Embora o catolicismo tenha perdido participação relativa nas
últimas décadas, ele continua sendo a maior identidade religiosa do país, ao
lado de um segmento evangélico numeroso, organizado e cada vez mais relevante
na política.
Religião,
porém, não é um bloco eleitoral automático. Católicos votam de formas
diferentes entre si. O mesmo vale para evangélicos, espíritas, adeptos de
religiões de matriz africana e pessoas sem religião. O que a história demonstra
é outra coisa. Quando campanhas conseguem transformar fé, valores ou símbolos
sagrados em linguagem política, podem deslocar prioridades, ativar medos e
alterar a correlação de forças.
Da
Liga Católica à Constituinte
Um dos
primeiros episódios marcantes ocorreu na eleição de 1933, convocada para formar
a Assembleia Nacional Constituinte após a Revolução de 1930. A Igreja Católica,
então empenhada em recuperar espaço público depois da separação formal entre
Igreja e Estado instituída pela República, organizou a Liga Eleitoral Católica.
A
estratégia era objetiva. A Liga recomendava ao eleitorado candidatos
comprometidos com uma agenda católica, que incluía o ensino religioso e
posições conservadoras em temas de família. A operação teve êxito. A maioria
dos candidatos apoiados pela entidade foi eleita, e parte importante de suas
reivindicações encontrou espaço na Constituição de 1934.
Não se
tratava de uma eleição presidencial decidida por uma polêmica religiosa de
última hora. Era algo mais estruturado. Uma instituição religiosa buscava
formar maioria legislativa e influenciar o desenho constitucional do país. A
lição daquele momento permanece atual. Religião pesa mais quando deixa de ser
apenas convicção individual e se transforma em organização, rede e agenda
pública.
A
ascensão evangélica e o voto moral
Outro
ponto de inflexão veio com a redemocratização. Nas eleições de 1986, que
escolheram o Congresso Constituinte responsável pela Constituição de 1988,
igrejas evangélicas ampliaram sua presença institucional. A chamada bancada
evangélica passou de 14 deputados federais eleitos em 1982 para 33 em 1986,
acompanhando tanto o crescimento demográfico desse segmento quanto sua maior
disposição de disputar o poder político.
Em
1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, a religião
entrou na disputa sob a forma de temor e desinformação. Setores evangélicos
foram mobilizados contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva a partir da
ideia de que uma vitória da esquerda poderia ameaçar a liberdade das igrejas ou
implantar um projeto ateu e hostil à fé. Pesquisas sobre o período registram a
resistência de parte do eleitorado evangélico a Lula e o apoio de lideranças
religiosas a Fernando Collor.
A
eleição não pode ser resumida a isso. Collor venceu por uma combinação de
fatores, como a imagem de renovação, a comunicação de massa, a fragmentação do
primeiro turno e a forte exposição televisiva. Mas o caso mostrou a eficácia
política de um recurso que continuaria a aparecer nas décadas seguintes.
Bastava apresentar a disputa eleitoral como uma escolha entre a preservação da
fé e uma suposta ameaça moral.
2010:
o aborto no centro da eleição
Nenhuma
eleição presidencial brasileira recente tornou a religião tão visível como a de
2010. A disputa entre Dilma Rousseff e José Serra, com Marina Silva como
terceira força no primeiro turno, foi atravessada pelo debate sobre aborto,
família e valores religiosos.
Dilma,
candidata apoiada pelo então presidente Lula e favorita nas pesquisas durante
boa parte da campanha, passou a enfrentar uma ofensiva intensa de setores
católicos e evangélicos. Discursos, vídeos, panfletos, correntes digitais e
manifestações de lideranças religiosas associaram sua candidatura à legalização
do aborto e a uma agenda moralmente permissiva.
O
resultado foi a transformação de uma pauta que antes ocupava espaço restrito no
debate político em um dos centros da campanha. O aborto tornou-se uma peça
central da disputa presidencial de 2010, justamente por articular religião,
moral e política.
A
pressão foi suficiente para obrigar Dilma a reposicionar sua comunicação
pública. A candidata divulgou carta aos cristãos, declarou-se contrária à
mudança na legislação sobre aborto e buscou neutralizar a desconfiança de
eleitores religiosos. José Serra, por sua vez, procurou capturar o espaço
aberto pelo debate moral, ainda que também precisasse evitar uma imagem
excessivamente sectária.
Dilma
terminou o primeiro turno com 46,9% dos votos válidos, contra 32,6% de Serra.
Marina Silva obteve 19,3%. O segundo turno, que parecia improvável meses antes,
tornou-se necessário.
Seria
impreciso, no entanto, atribuir o segundo turno apenas à questão religiosa.
Estudos sobre a eleição indicam que a controvérsia do aborto afetou a campanha,
especialmente entre segmentos religiosos, mas também apontam o impacto de
escândalos políticos, da mudança de cenário no fim da disputa e da própria
força eleitoral de Marina. A conclusão mais responsável é que 2010 não foi
apenas a eleição do aborto. Foi o momento em que pautas morais de inspiração
religiosa se consolidaram como instrumento nacional de campanha presidencial.
Ali se
fixou um padrão que se repetiria. Pautas religiosas e morais podem não decidir
sozinhas quem vence, mas são capazes de alterar o tom da eleição, impor recuos,
obrigar candidaturas a produzir sinais de fé e reorganizar alianças eleitorais.
2018
e 2022: a religião como identidade política
Em
2018, esse padrão ganhou outra dimensão. Jair Bolsonaro construiu uma linguagem
política diretamente ligada ao conservadorismo cristão, com referências a Deus,
à família, ao combate à chamada ideologia de gênero e à defesa de valores
tradicionais. O apoio evangélico foi um dos pilares de sua vitória, embora não
explique, isoladamente, o resultado eleitoral.
Em
2022, a religião permaneceu no centro. Bolsonaro conservou ampla preferência
entre evangélicos, enquanto Lula obteve melhor desempenho entre católicos e
entre pessoas sem religião. A campanha foi marcada por disputas sobre
fechamento de igrejas, liberdade religiosa, aborto e costumes, muitas vezes
sustentadas por conteúdos falsos ou distorcidos. O próprio fato de Lula ter
divulgado uma carta dirigida aos evangélicos revelou o peso político que o
segmento havia adquirido.
O dado
decisivo é que o voto religioso não funciona como uma sentença. Bolsonaro teve
maioria entre evangélicos em 2022, mas Lula venceu a eleição. A religião
influencia preferências e estratégias, mas convive com renda, emprego,
inflação, rejeição, avaliação de governo, território, raça, gênero e trajetória
partidária. Uma campanha que ignore a fé perde parte do país. Uma análise que
reduza o país à fé perde quase tudo o mais.
A
disputa por Nossa Senhora Aparecida
É nesse
contexto que deve ser lida a atual polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida,
padroeira do Brasil. Nos últimos dias, circulou nas redes a afirmação de que
Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do país. A
Justiça Eleitoral inicialmente determinou a remoção de publicações relacionadas ao fato. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, anulou
a decisão e determinou o restabelecimento das publicações, com fundamento na
liberdade de expressão e na liberdade religiosa.
O
episódio tem importância política. Ele mostra como um símbolo religioso de
alcance nacional pode transformar-se em combustível eleitoral quase
instantaneamente. A disputa não é apenas sobre uma lei ou uma publicação. É
sobre pertencimento, identidade e a possibilidade de se apresentar o adversário
como hostil a algo profundamente incorporado à memória afetiva de milhões de
brasileiros.
O
monitoramento de redes reportado pela Folha de São Paulo mostra que o tema da
padroeira deslocou, ao lado das apostas esportivas, a atenção da reta final da
campanha. A controvérsia cresceu especialmente no X e ampliou sua circulação
depois das decisões judiciais. É o efeito Streisand, um fenômeno conhecido dos
ambientes digitais: a tentativa de censurar um conteúdo pode, paradoxalmente,
aumentar seu alcance.
Há,
ainda, um dado eleitoral relevante. No recorte por religião da pesquisa
BTG/Nexus, realizada entre 25 e 27 de setembro, Lula aparece com 50% das
intenções de voto entre católicos, contra 26% de Flávio Bolsonaro. Entre
evangélicos, a relação se inverte. Flávio tem 50%, e Lula, 31%.
No
segundo turno, o contraste permanece. Lula marca 52% entre católicos, diante de
39% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio alcança 57%, e Lula, 35%. A pesquisa
registra que os católicos representaram 50% da amostra e os evangélicos, 28%. A
Nexus menciona os acontecimentos recentes ao apresentar os dados, mas não é
possível atribuir a eles, isoladamente, as oscilações observadas nem afirmar
que essas diferenças permanecerão até a eleição. Pesquisa revela tendências e
diferenças entre grupos, mas não prova, por si só, causalidade. A controvérsia
sobre a padroeira pode mobilizar identidades, ampliar rejeições ou reforçar
convicções já existentes. Não é possível afirmar, contudo, que ela definirá a
escolha do eleitorado.
A
urna não é um altar
A
história brasileira recomenda duas conclusões simultâneas. A primeira é que
religião importa. Ela organiza comunidades, oferece vocabulário moral, cria
lideranças, ativa emoções e pode alterar o curso de uma campanha. Ignorá-la é
não compreender uma parte decisiva da sociedade brasileira.
A
segunda é que o eleitor não cabe em um púlpito. Católicos não são monolíticos.
Evangélicos tampouco. A adesão religiosa não cancela interesses materiais,
experiências de vida, preferências ideológicas ou avaliações concretas de
governo.
A urna não é um altar. Mas, em momentos decisivos, a política sabe muito bem como entrar nele.
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Suprema Corte
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Guerra Fria Institucional
“Os Guerreiros”, de Bruno Giorgi
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
A Urna e o Palácio
domingo, 26 de julho de 2026
Enchentes no Rio Grande do Sul revelam o custo do improviso
O debate sobre cheias no Estado precisa sair da comoção e entrar no terreno das decisões duras
As enchentes recentes no Rio Grande do
Sul voltaram a expor uma questão que o poder público brasileiro costuma deixar
para depois. Como montar uma política séria de prevenção à inundação? O
problema não é só técnico. Envolve instituições, orçamento, disputa eleitoral e
capacidade estatal de antecipar risco antes que a água suba.
O debate público precisa abandonar a
ilusão de que existe uma solução mágica. O que países que convivem há décadas
com esse tipo de ameaça fizeram foi reunir respostas diferentes, de acordo com
seu território, seus riscos e sua capacidade de gestão. É essa combinação que
pode enriquecer a resposta gaúcha. O RS não precisa escolher entre engenharia
pesada, drenagem urbana inteligente e soluções baseadas na natureza. Precisa
articular essas frentes dentro de uma política contínua, com comando claro,
financiamento estável e cobrança social permanente.
A experiência da Holanda é emblemática. Lá,
a proteção contra a água não aparece como obra extraordinária, mas como rotina
de Estado. Diques, comportas, bombas, canais, monitoramento e manutenção
compõem um sistema que exige vigilância diária. A lição holandesa é simples.
Não basta erguer barreiras. É preciso administrar o território com a
consciência de que a água sempre buscará seu espaço. Em um estado como o RS,
especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, essa mentalidade é
decisiva. Obras isoladas pouco resolvem sem planejamento permanente e
manutenção rigorosa.
O Japão oferece outra referência. Em vez
de confiar apenas em canais superficiais, o país desenvolveu sistemas
subterrâneos de desvio e reservação capazes de absorver volumes enormes de água
em eventos extremos. Trata-se de engenharia de alta complexidade, pensada para
metrópoles densas, impermeabilizadas e expostas a chuvas intensas. Essa lógica
pode inspirar o RS nas áreas urbanas mais vulneráveis, onde a simples
canalização já não acompanha a força dos eventos climáticos. Túneis de
contenção, reservatórios de detenção e estruturas de amortecimento podem ser
fundamentais, desde que venham acompanhados de boa gestão e manutenção.
Já o conceito de cidade-esponja amplia o
debate para além da obra dura. Ele propõe que a própria cidade absorva parte da
água da chuva por meio de pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados
verdes, praças alagáveis e áreas de retenção. Em vez de escoar a água depressa,
como faz o urbanismo tradicional, a cidade-esponja procura segurar, infiltrar e
reutilizar. O modelo é especialmente relevante porque enfrenta um problema
estrutural do RS, a impermeabilização crescente do solo, resultado de décadas
de ocupação desordenada e política urbana equivocada.
No Vale do Taquari, o eixo principal
precisa ser o alerta precoce, o monitoramento hidrológico e a evacuação rápida.
Há territórios em que não faz sentido imaginar que todas as cheias serão
contidas por grandes obras. Nesses casos, a prioridade deve ser salvar vidas,
reduzir danos e reorganizar a ocupação do solo. Sirenes, sensores, boletins em
tempo real, rotas de fuga e protocolos claros de emergência são tão importantes
quanto obras de contenção. Quando a cheia avança rápido, o que separa proteção
de tragédia é a antecipação.
É nesse ponto que a discussão deixa de
ser apenas técnica e entra no campo político. A prevenção de enchentes depende
de decisão pública, e decisão pública depende de disputa eleitoral, prioridade
orçamentária e pressão social. Governos gostam de inaugurar obras, mas tendem a
negligenciar aquilo que não rende foto. Manutenção, mapeamento de risco,
fiscalização do uso do solo e modernização da defesa civil costumam ficar em
segundo plano. Pesquisadores, universidades, órgãos de controle, movimentos
sociais, jornalistas e entidades da sociedade civil precisam ocupar esse espaço
de cobrança antes da próxima tragédia, e não apenas depois dela.
As eleições deveriam servir justamente
para isso. Cobrar compromissos concretos. Prefeitos, governadores e
parlamentares precisam dizer qual modelo de drenagem pretendem adotar, quais
áreas serão protegidas com obras estruturais, onde entram soluções baseadas na
natureza, quais comunidades precisam ser reassentadas, quem fará a manutenção e
quem fiscalizará as metas. Sem resposta objetiva, o discurso vira administração
da memória do desastre.
O RS tem diante de si a chance de
transformar uma dor histórica em virada institucional. Mas isso exige
maturidade pública. Exige abandonar a lógica do improviso, da reação tardia e
da promessa eleitoreira. Exige aprender com a Holanda a importância da governança
hídrica contínua, com o Japão a força da engenharia subterrânea e com a
cidade-esponja a necessidade de redesenhar o espaço urbano para conviver com a
água, e não apenas combatê-la.
A enchente não é só o momento em que o
rio transborda. É também o momento em que o Estado revela seus limites. E
talvez seja exatamente por isso que a resposta precise ser maior do que a
tragédia: mais técnica, mais política, mais institucional e mais honesta com o
futuro, porque a conta final, em bilhões de reais, quem paga é o contribuinte, e quando a omissão se agrava, paga também com a própria vida.
Medidas para o RS
- Reforçar
e elevar diques, comportas e casas de bombas em Porto Alegre e no entorno
do Guaíba, com revisão de pontos de falha e redundância elétrica e
mecânica.
- Ampliar
o sistema de alerta hidrológico no Vale do Taquari, com mais estações,
modelagem em tempo real e sirenes em áreas urbanas e rurais de evacuação
difícil.
- Implantar
zonas de retenção, parques de inundação e pavimentos permeáveis em áreas
urbanas, seguindo o conceito de cidade-esponja, para reduzir picos de
escoamento superficial.
- Fazer o
mapeamento fino de risco, com reassentamento progressivo de famílias em
cota crítica e proibição de nova ocupação nas faixas de inundação
recorrente.
- Criar
um plano operacional unificado entre Defesa Civil, prefeituras, Estado e
concessionárias, com protocolos automáticos de resposta, evacuação e
restabelecimento.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Renovação da ALRS preserva estruturas de poder no século XXI
Imagem meramente ilustrativa
Sucessão de legislaturas revela alternância limitada e
continuidade de grupos políticos em um contexto de crise de representatividade no
país
A renovação da Assembleia Legislativa do
Rio Grande do Sul tem sido mais contida do que transformadora. Considerando o
século XXI, com início na 50ª legislatura, a troca de parlamentares permaneceu
em patamar moderado, sem produzir ruptura significativa na composição política
da Casa.
Os dados mostram que, da 50ª à 56ª
legislatura, a taxa estimada de renovação girou em torno de 40% a 50%. O padrão
indica estabilidade na reposição de cadeiras e sugere que a alternância
eleitoral ocorreu sem mudanças mais profundas na estrutura de poder do
parlamento gaúcho.
Taxa estimada de renovação da ALRS no século XXI
|
Legislatura |
Renovação estimada |
|
50ª (1999–2003) |
--- |
|
51ª (2003–2007) |
50% |
|
52ª (2007–2011) |
40–50% |
|
53ª (2011–2015) |
40–50% |
|
54ª (2015–2019) |
40–50% |
|
55ª (2019–2023) |
40–50% |
|
56ª (2023–2027) |
40–50% |
A ALRS entrou no
século XXI sem experimentar ondas consistentes de renovação ampla. Em vez
disso, observa-se mera substituição parcial de nomes, com parte das cadeiras
mudando de mãos, mas sem alteração significativa na estrutura política do
parlamento.
Esse dado ganha
relevância porque este século é marcado pela revolução digital, pela expansão
da internet, pela globalização e por grandes transformações geopolíticas. Nesse
contexto, a dinâmica da representação política no RS aparece em ritmo mais
lento que o das mudanças sociais, tecnológicas e culturais do período, o que
amplia a percepção de descompasso entre sociedade e sistema político.
Mais do que um
dado estatístico, esse padrão de renovação limitada se insere em uma crise de
representatividade mais ampla, marcada por abstenção significativa e descrença
nas instituições. A permanência de nomes por vários mandatos reforça, nesse
cenário, a percepção de distância entre o eleitorado e seus representantes.
A baixa
renovação também se relaciona a mecanismos estruturais de poder, como o peso
das nominatas partidárias, a visibilidade acumulada por quem já ocupa mandato e
a reprodução de grupos políticos tradicionais. Na prática, esses fatores
reduzem o espaço para lideranças novas ou dissidentes e tornam a disputa menos
aberta do que sugere a mera alternância formal de cadeiras.
Há ainda uma
dimensão institucional e histórica mais profunda nessa permanência. A
persistência de sobrenomes, grupos familiares e redes duradouras no parlamento
gaúcho pode ser lida como expressão de traços patrimonialistas, de laços de
parentesco e de formas adaptadas de coronelismo político que atravessam a
formação do Estado brasileiro.
Por isso, a
renovação de quadros não depende apenas do voto, mas também da abertura interna
e reforma dos partidos e da democratização de suas instâncias diretivas. Sem
mudanças nesse nível, a alternância tende a continuar limitada, com trocas
parciais na superfície e continuidade mais profunda na engrenagem do poder.
Em um século marcado por transformações aceleradas, o desafio que se coloca para a política gaúcha é romper com essa inércia, ampliando a participação social e criando condições reais para que novas lideranças disputem espaço em igualdade de condições. Se os mecanismos que preservam estruturas de poder e reduzem a renovação efetiva da representação não forem enfrentados, a distância entre Parlamento e sociedade tende a aumentar, e a crise de confiança nas instituições a se aprofundar.




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