sábado, 30 de maio de 2026

Quem controla os controladores? O silêncio em torno dos Tribunais de Contas

 
Valter Campanato/Agência Brasil

Entre discurso de moralização e desenhos corporativos de poder, o país ainda não decidiu quem deve vigiar as cortes responsáveis por zelar pelo dinheiro público.

No Brasil, é comum a afirmação de que ninguém está acima da lei. A Constituição de 1988 desenhou uma ampla malha de instituições de fiscalização, que inclui Tribunais de Contas, Ministério Público, controladorias, receitas, ouvidorias e mecanismos de participação social em conselhos populares. Criaram‑se, inclusive, conselhos nacionais para vigiar o sistema de justiça, como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Há, contudo, um ponto cego que persiste: quem controla os controladores das contas públicas?

Os Tribunais de Contas ocupam posição estratégica na rede de accountability brasileira. Compete a essas instituições examinar a legalidade, a legitimidade e a economicidade dos gastos, julgar responsáveis por dinheiros públicos e aplicar sanções relevantes, como multas e rejeição de contas de gestores. Ao mesmo tempo, essas cortes dispõem de autonomia funcional, administrativa e financeira, o que as coloca em uma espécie de “terra de ninguém” entre Legislativo e Judiciário. Não se confundem com tribunais judiciais, tampouco se reduzem a simples órgãos auxiliares do Parlamento e, ao contrário do Judiciário e do Ministério Público, não são supervisionadas por um conselho nacional.

Entre 2007 e 2025, uma série de Propostas de Emenda à Constituição buscou enfrentar esse vazio institucional. Foram apresentadas PECs para criar um Conselho Nacional dos Tribunais de Contas (CNTC) ou para submeter essas cortes ao controle do CNJ e do CNMP. No plano formal, tratava‑se de um avanço intuitivo: se já se reconhece a necessidade de controlar juízes e membros do Ministério Público, seria coerente adotar solução semelhante em relação a quem fiscaliza bilhões em contratos, obras e políticas públicas. Passadas quase duas décadas desde as primeiras iniciativas, porém, nenhuma dessas propostas se consolidou.

A análise detida desses projetos indica que o problema não reside apenas na falta de vontade política para instituir um órgão de controle, mas também no tipo de controle que se pretende criar. Quando se observa a composição prevista para os conselhos propostos, revela‑se um padrão recorrente. A maioria das cadeiras é reservada a integrantes das próprias cortes de contas ou a membros do Ministério Público de Contas, com participação limitada de advogados, profissionais externos e cidadãos indicados pelo Congresso Nacional. Em algumas PECs, cerca de três quartos das vagas são ocupados por “insiders”, o que deixa menos de um terço para agentes externos, muitas vezes em posição mais simbólica do que efetiva.

Sob o discurso de “controle externo”, idealiza‑se, na prática, um modelo de autorregulação corporativa. Reproduz‑se o que a literatura especializada descreve como endogenia e isomorfismo institucional: aqueles que são objeto de fiscalização ocupam a maioria das cadeiras do órgão que deveria fiscalizá‑los. Em vez de abrir espaço para mecanismos robustos de accountability democrática, com transparência, responsividade às demandas sociais e prestação de contas para além das corporações, as propostas tendem a reforçar a simbiose entre controladores e controlados. A experiência de CNJ e CNMP, frequentemente criticados pela baixa permeabilidade ao controle social, acaba servindo de modelo para conselhos que funcionam mais como espaços de defesa das elites de controle do que como instâncias de fiscalização em nome da sociedade.

O debate também envolve um componente político pouco explorado. Os Tribunais de Contas são peças de alto valor na engrenagem do poder, já que seus membros são escolhidos em arranjos que combinam indicações de chefes do Executivo, votações no Legislativo e vagas para auditores e membros do Ministério Público de Contas, em sistemas intensamente atravessados por alianças partidárias e interesses regionais. A influência sobre essas cortes pode significar margem de manobra sobre a fiscalização de governos e prefeitos, sobre a aprovação de contas e sobre a exposição, ou não, de escândalos. Não causa surpresa, portanto, que reformas avancem sob forte retórica de moralização, mas encontrem barreiras no momento de alterar de forma efetiva esses espaços de poder, que também operam como arenas de reprodução de elites.

A isso se soma um paradoxo típico da burocracia de controle. Instituições concebidas para exigir prestação de contas de terceiros operam, elas mesmas, sob controles relativamente frágeis. Em geral, seu escrutínio limita‑se às formas de nomeação de seus membros, ao orçamento aprovado anualmente e a algum grau de transparência formal. No discurso, enfatiza‑se o “controle social” e a “participação cidadã”; na prática, contudo, pouco se avança em instrumentos que permitam à população influenciar agendas, questionar decisões ou acompanhar, de maneira acessível, a atuação cotidiana dessas cortes.

Isso não significa que um conselho nacional para os Tribunais de Contas seja, por definição, uma má ideia, mas tampouco representa solução adequada. A trajetória das PECs demonstra que não basta replicar modelos já existentes nem criar novas instâncias com maioria corporativa. Se o objetivo declarado é ampliar a accountability democrática, o debate precisa ultrapassar a discussão sobre a arquitetura interna das carreiras e incorporar mecanismos como ouvidorias independentes, maior presença de organizações da sociedade civil, universidades, transparência ativa em linguagem acessível e mandatos menos suscetíveis à captura por interesses corporativos e políticos. Experiências estrangeiras, como a tradição do Ombudsman em países como a Suécia, indicam que é possível estruturar instituições de controle que respondam mais diretamente ao público do que às corporações estatais.

Ao fim, a pergunta “quem controla os controladores?” não se limita a um recurso retórico. Ela remete a uma escolha política sobre quem detém a palavra final na gestão do dinheiro público. Enquanto o debate permanecer circunscrito a arranjos corporativos e negociações de bastidores, o controle dos Tribunais de Contas continuará sendo, em larga medida, um tema decidido entre elites burocráticas e políticas. Recolocar essa discussão na esfera pública, com base em dados, transparência e participação, constitui passo indispensável para que os órgãos encarregados de fiscalizar o uso dos recursos públicos também se reconheçam responsáveis perante aqueles que, em última instância, financiam o Estado: os cidadãos.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Arrombou o País III

 

O resultado das eleições” (O Malho, n. 24, 1903, p. 6)

Ai, ai, meu povo, o que foi que aconteceu
Com a tal República Federativa do jangadeiro?
Todo mundo fala sério em discurso de roteiro,
Mas esse sério já nasceu com filtro e com letreiro.

Tem juiz de toga pop, influencer de estação,
Dando aula no Instagram sobre ética e corrupção,
Assina sentença, posa, entrega opinião em HD,
Mas o prazo do processo segue sem data pra acontecer.

No Congresso tem de tudo — é vitrine e é bazar,
Coach de patriotismo, fiscal pronto pra performar,
Cada emenda vira lance num leilão sem pudor,
“Deus, família e Pix” como dogma salvador.

O Centrão, velho ofício, nunca perde a direção,
Chega cedo em qualquer governo, já com chave e caminhão,
Troca cargo, troca voto, ajusta lado conforme o pé,
Só não troca o velho vício de sentar no próprio café.

Tem patriota de camisa verde-amarelo neon,
Que no susto pede ordem, mas foge do contracheque e do tom,
Grita “intervenção!” com fervor de ocasião,
Mas na fila do imposto dissolve a convicção.

E quando a realidade aperta mais do que devia,
Tem gente tomando Ypê como cura e profecia,
Rezando pra ET salvar a pátria em operação,
Porque a Terra já cansou da própria administração.

A esquerda escreve threads com rigor internacional,
Explica o mundo inteiro do balcão do bar virtual,
Cita Marx, Butler, Lenin, compõe tese e vitrine,
Mas quando vira política, a conexão sempre declina.

O mercado é o primo sério, de planilha e de moral,
Se o juro oscila um ponto, entra em crise estrutural,
Se a fome cresce, chama isso de ajuste natural,
Desde que o lucro siga firme, crescente e triunfal.

Tem vazamento em série, justiça de ocasião,
Áudio, dado e planilha viram espetáculo na mão,
Depois vem nota técnica, culpa de interpretação,
Mas o estrago já circula no zap da população.

Governador faz live, prefeito corta inauguração,
Obra pela metade, mas completa na transmissão,
Enquanto o ônibus lota e falta ficha no hospital,
O povo paga em dobro por um serviço informal.

Na Suprema Corte, votos viram monumento em PDF,
Latim, pop e doutrina em desfile STF,
Cada qual com sua tese, seu estilo e seu tour,
E o jurisdicionado esperando algum “por favor”.

Os militares observam, com silêncio estratégico,
“Não estamos no jogo”, mas mantêm tom pedagógico,
Sempre deixam o recado, meio vago, meio urgente:
“Se o sistema falhar, convoquem a gente.”

Empresário solidário faz campanha emocional,
Distribui cesta básica com branding institucional,
No balanço do ano, tudo entra como dedução,
Caridade com contrato, incentivo e projeção.

Influencer da política vende curso de insurreição,
“Em sete módulos você muda toda a nação”,
Tem certificado, bônus, pix e validação,
Rebeldia com cashback e prazo de expiração.

Ai, ai, meu povo, o que foi que aconteceu
Com essa política em modo espetáculo de cabaré?
Entre o delírio e o decreto, a fé virou solução,
E o absurdo já disputa eleição.

E no meio do ruído, segue o mesmo freguês:
Acorda cedo, pega fila, trabalha o mês inteiro outra vez,
Vota, reza — pra Deus, pra ET ou pra qualquer salvação —
E ri pra não chorar da própria condição.

domingo, 17 de maio de 2026

República em Cartaz

 

O Atlas da República, em O Malho, 1904.

Hey, hey
é ano eleitoral no Brasil
e o cofre já nem range —
arrombou de vez,
com senha, assinatura e sorriso de TV.

Vem chegando o caixa 2
com perfume de legalidade,
alma quente,
e um jeitinho que cruza tribunais
como quem atravessa a rua.

Mas o golpe — ah, o golpe —
vem mesmo é a galope,
não precisa mais de quartel:
usa gravata, gabinete e algoritmo,
e chama isso de vontade popular.

Do gabinete à praça, o espetáculo migra:
político aparece cantando samba,
desafinando promessas na praça,
a vila vira palanque,
ponto de encontro do esquecimento,
onde todo mundo lembra só do amanhã
que nunca chega.

Promessas voam a jato,
classe executiva da mentira,
e o negro vira cartaz outra vez:
sorriso alugado,
estatística conveniente,
corpo presente na foto
e ausente na partilha —
peça de campanha
no mercado das versões.

Todos perderam a vergonha —
foi leiloada com o discurso,
em lote único,
arrematada por quem já sabia o resultado.

Ninguém parece temer a justiça eleitoral,
senhora de passos lentos
e olhos vendados com papel timbrado.
Só quando cai um ou outro
— bode expiatório de ocasião —
cassado, condenado,
como se o sistema pedisse desculpa
sem dizer a quem.

A lógica é a mesma,
repetida como jingle:
muda o rosto, não muda o roteiro.

Por todos os lados brotam
políticos de ocasião,
como praga em solo fértil,
cultivados à verba,
regados a silêncio.

Logo ali, entre escândalos,
ajudam a fundar de novo a República —
essa eterna inauguração do nada,
um país que se reinventa
sem nunca se refazer.

Hey, hey,
bate palma, Brasil:
o espetáculo continua,
e o ingresso
já foi pago em impostos.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Roteiro Vazado

 

O Brasil foi abalado por um novo escândalo de corrupção
Aroeira, publicado em A Tarde, em 29/11/2015

A república sacudiu
sem nenhum rigor literário
até a Academia de Letras
perdeu a vírgula — e o álibi.
Virou comédia.
Virou filme ruim bancado com dinheiro bom
Coisa de cinema, amor —
é Hollywood?
Não.
Mas tem roteiro vazado,
ator reincidente
e produtor investigado.
O herdeiro pede grana
como quem não precisa explicar.
E o banqueiro?
ri em juros compostos,
capitalizando o escândalo,
porque no Brasil
escândalo também rende.
e ninguém fecha a conta —
só muda o contador.
Tentaram censurar a imprensa —
com jeitinho —
mas saiu até no NY,
com legenda e vexame em dólar.
A elite aplaude em off,
ajeita o terno,
troca o discurso
e vira “instabilidade institucional” na mídia.
Instável é a paciência.
Porque aqui
corrupção não é crise —
é modelo de negócio com tradição familiar.
E o filme segue:
sem bilheteria,
sem crítica boa,
mas com financiamento garantido.
No final, ninguém entende o enredo,
mas todo mundo sabe
quem pagou a conta.
E como sempre,
o país estreia de novo —
e ninguém aprende o roteiro.

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Presidente

 

No alto do Planalto,
onde as cúpulas pensam que são eternas,
o vidro treme.

A praça,
que aprendera a ser triângulo de poderes,
acorda estilhaçada:
bandeiras viram trapos,
vidraças sangram em silêncio,
marteletes discursam em nome do povo.

Mas o Presidente
não está ali.
Está longe, no barro de Araraquara,
onde a enxurrada escreve decretos na lama
e as casas desabam
sem pedir autorização.

Ele pisa poças,
ouve nomes que nunca entrarão em ata,
vê brinquedos boiando
como pequenas constituições afogadas.
Enquanto isso, em Brasília,
a vontade torpe veste verde,
se enrola na própria farda imaginária
e avança.

No palácio, a notícia chega
como sirene dentro do peito.
A Primeira-Dama,
entre uma sala e outra,
ouve a senha sussurrada
que vem de outro século: GLO.
Ela recusa com o grito inteiro do corpo:
“GLO não, é golpe!”,
como quem fecha, num só fôlego,
todas as portas da história.

Um ministro abre pastas invisíveis,
tira delas o cardápio constitucional
como quem oferece água no incêndio:
intervenção federal,
palavra que desce arranhando a garganta
mas ainda é lei,
não baioneta.

Então o céu se povoa.
Helicópteros começam a brotar
do horizonte de concreto,
cortando o ar como vírgulas
num parágrafo em estado de sítio.
Viaturas correm,
a Polícia Federal acende faróis
no asfalto perplexo,
snipers aparecem em telhados discretos,
silhuetas que escrevem, com miras vermelhas,
um perímetro em torno do corpo do Presidente.

É a cidade que arma, em segundos,
uma muralha de hélices e canos frios
para que um só corpo respire,
enquanto a praça, lá embaixo,
respira gás, pedra, lacre rompido.
Há uma coreografia urgente
entre o céu e o chão,
entre o homem que veio ver enchentes
e a enchente de ódio
que tenta arrastar o país.

Mais tarde se descobre
que o roteiro era maior que a praça:
não bastava quebrar vidro,
era preciso quebrar a espinha da República.
Na sombra dos gabinetes,
se desenha o silêncio forçado da Justiça,
a mordaça no tribunal
que gostavam de chamar de ativista.
Estava escrito, em tinta clandestina,
que o Presidente não voltaria,
que um ministro da suprema corte
seria calado para sempre,
que o vice desceria, sem escolta,
às notas de rodapé da barbárie.

O plano queria corpos
onde a política ainda insistia em palavras.
Queria transformar o centro do poder
num necrotério constitucional,
para então chamar isso de ordem,
de limpeza,
de começo.

Mas o Presidente estava em Araraquara,
no meio de ruas abertas em barro,
ouvindo histórias que nenhum general escuta.
O destino, ou o acaso,
ou o cálculo de quem cuida de agenda,
puxou o país alguns centímetros
para longe do abismo.

Os helicópteros,
as viaturas,
os snipers,
não foram metáfora:
foram o esqueleto armado da sobrevivência.
Ao redor de um corpo vivo
ergueu-se, às pressas,
um escudo de hélice e mira,
como se a República precisasse, de repente,
aprender a respirar por aparelhos.

Enquanto isso,
em algum gabinete ainda inteiro,
alguém rabisca uma versão oficial,
tenta reduzir o dia
a vandalismo de praça,
a excesso de paixão.
Esquece — por conveniência,
por medo,
por cumplicidade —
que no roteiro original
não era só vidro que deveria quebrar,
mas a própria ideia de futuro.

E um assessor, anos depois,
num bar qualquer de Florianópolis,
conta baixo que viu helicópteros,
viaturas, snipers,
que soube dos nomes na lista,
dos alvos marcados antes do tiro.
A história, ali, serve mais uma rodada
de detalhes que não cabem no telejornal.

Mas quem ouviu aquele relato
sabe que, por um triz,
o país quase coube
num caixão.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Alcance da Lei

    A lei pode alcançá-lo - O Anão e o Ladrão
  Thomas Nast, Harper´s Weekly, 6 de janeiro de 1872

No alto da cidade,
onde os prédios pensam que são eternos,
um homem pequeno rouba pão.

Outro,
de cartola invisível e gravata herdada,
desvia rios.

A lei passa,
de toga, pesada,
olhando primeiro para o chão.

Ali, encontra o anão:
tão visível,
tão alcançável,
tão culpado.

Ergue-se firme,
cumpre seu dever com rigor geométrico,
e o prende.

Depois olha para cima.

O gigante
não cabe no código,
não cabe na cela,
não cabe no gesto.

É grande demais
ou íntimo demais
ou necessário demais
à engrenagem que sustenta a própria lei.

A lei hesita —
coisa rara.

Consulta papéis,
artigos,
precedentes,
silêncios.

O gigante sorri,
não por coragem,
mas por costume.

E a cidade segue:
o pão é crime,
o rio é negócio.

E alguém anota,
em letra miúda,
que a justiça foi feita.

domingo, 10 de maio de 2026

No meio do Judiciário

CORRUPÇÃO, 1872. Judiciário corrupto no tribunal. Justiça: Agora, todos juntos! Charge de Thomas Nast sobre corrupção política nos tribunais.

No meio do Judiciário tinha corrupção
tinha corrupção no meio do Judiciário
tinha corrupção
no meio do Judiciário tinha corrupção

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de instituições tão cansadas
Nunca me esquecerei que, com todas as garantias processuais
no meio do Judiciário tinha corrupção

Tinha corrupção dentro da normalidade institucional
tinha corrupção com ampla defesa e contraditório
tinha corrupção em autos que ninguém leu
no meio do Judiciário tinha corrupção