segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Quando a fé entra na urna

 

Da mobilização católica na Constituinte de 1933 à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida em 2026, a religião nunca foi um detalhe na história eleitoral brasileira. Ela não explica sozinha o voto, mas ajuda a definir os afetos, os receios e as fronteiras morais da disputa

O Brasil é um Estado laico, mas jamais foi um país eleitoralmente indiferente à religião. A separação constitucional entre Estado e igrejas não eliminou da política as crenças, os valores, os símbolos e as redes de influência que atravessam a vida religiosa brasileira. Ao contrário, em períodos de maior tensão moral ou de campanhas muito polarizadas, a fé costuma sair do plano privado e entrar de vez na arena pública.

Os números ajudam a explicar por quê. Segundo o Censo 2022, 100,22 milhões de brasileiros se declararam católicos, o equivalente a 56,7% da população com 10 anos ou mais. Embora o catolicismo tenha perdido participação relativa nas últimas décadas, ele continua sendo a maior identidade religiosa do país, ao lado de um segmento evangélico numeroso, organizado e cada vez mais relevante na política.

Religião, porém, não é um bloco eleitoral automático. Católicos votam de formas diferentes entre si. O mesmo vale para evangélicos, espíritas, adeptos de religiões de matriz africana e pessoas sem religião. O que a história demonstra é outra coisa. Quando campanhas conseguem transformar fé, valores ou símbolos sagrados em linguagem política, podem deslocar prioridades, ativar medos e alterar a correlação de forças.

Da Liga Católica à Constituinte

Um dos primeiros episódios marcantes ocorreu na eleição de 1933, convocada para formar a Assembleia Nacional Constituinte após a Revolução de 1930. A Igreja Católica, então empenhada em recuperar espaço público depois da separação formal entre Igreja e Estado instituída pela República, organizou a Liga Eleitoral Católica.

A estratégia era objetiva. A Liga recomendava ao eleitorado candidatos comprometidos com uma agenda católica, que incluía o ensino religioso e posições conservadoras em temas de família. A operação teve êxito. A maioria dos candidatos apoiados pela entidade foi eleita, e parte importante de suas reivindicações encontrou espaço na Constituição de 1934.

Não se tratava de uma eleição presidencial decidida por uma polêmica religiosa de última hora. Era algo mais estruturado. Uma instituição religiosa buscava formar maioria legislativa e influenciar o desenho constitucional do país. A lição daquele momento permanece atual. Religião pesa mais quando deixa de ser apenas convicção individual e se transforma em organização, rede e agenda pública.

A ascensão evangélica e o voto moral

Outro ponto de inflexão veio com a redemocratização. Nas eleições de 1986, que escolheram o Congresso Constituinte responsável pela Constituição de 1988, igrejas evangélicas ampliaram sua presença institucional. A chamada bancada evangélica passou de 14 deputados federais eleitos em 1982 para 33 em 1986, acompanhando tanto o crescimento demográfico desse segmento quanto sua maior disposição de disputar o poder político.

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, a religião entrou na disputa sob a forma de temor e desinformação. Setores evangélicos foram mobilizados contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva a partir da ideia de que uma vitória da esquerda poderia ameaçar a liberdade das igrejas ou implantar um projeto ateu e hostil à fé. Pesquisas sobre o período registram a resistência de parte do eleitorado evangélico a Lula e o apoio de lideranças religiosas a Fernando Collor.

A eleição não pode ser resumida a isso. Collor venceu por uma combinação de fatores, como a imagem de renovação, a comunicação de massa, a fragmentação do primeiro turno e a forte exposição televisiva. Mas o caso mostrou a eficácia política de um recurso que continuaria a aparecer nas décadas seguintes. Bastava apresentar a disputa eleitoral como uma escolha entre a preservação da fé e uma suposta ameaça moral.

2010: o aborto no centro da eleição

Nenhuma eleição presidencial brasileira recente tornou a religião tão visível como a de 2010. A disputa entre Dilma Rousseff e José Serra, com Marina Silva como terceira força no primeiro turno, foi atravessada pelo debate sobre aborto, família e valores religiosos.

Dilma, candidata apoiada pelo então presidente Lula e favorita nas pesquisas durante boa parte da campanha, passou a enfrentar uma ofensiva intensa de setores católicos e evangélicos. Discursos, vídeos, panfletos, correntes digitais e manifestações de lideranças religiosas associaram sua candidatura à legalização do aborto e a uma agenda moralmente permissiva.

O resultado foi a transformação de uma pauta que antes ocupava espaço restrito no debate político em um dos centros da campanha. O aborto tornou-se uma peça central da disputa presidencial de 2010, justamente por articular religião, moral e política.

A pressão foi suficiente para obrigar Dilma a reposicionar sua comunicação pública. A candidata divulgou carta aos cristãos, declarou-se contrária à mudança na legislação sobre aborto e buscou neutralizar a desconfiança de eleitores religiosos. José Serra, por sua vez, procurou capturar o espaço aberto pelo debate moral, ainda que também precisasse evitar uma imagem excessivamente sectária.

Dilma terminou o primeiro turno com 46,9% dos votos válidos, contra 32,6% de Serra. Marina Silva obteve 19,3%. O segundo turno, que parecia improvável meses antes, tornou-se necessário.

Seria impreciso, no entanto, atribuir o segundo turno apenas à questão religiosa. Estudos sobre a eleição indicam que a controvérsia do aborto afetou a campanha, especialmente entre segmentos religiosos, mas também apontam o impacto de escândalos políticos, da mudança de cenário no fim da disputa e da própria força eleitoral de Marina. A conclusão mais responsável é que 2010 não foi apenas a eleição do aborto. Foi o momento em que pautas morais de inspiração religiosa se consolidaram como instrumento nacional de campanha presidencial.

Ali se fixou um padrão que se repetiria. Pautas religiosas e morais podem não decidir sozinhas quem vence, mas são capazes de alterar o tom da eleição, impor recuos, obrigar candidaturas a produzir sinais de fé e reorganizar alianças eleitorais.

2018 e 2022: a religião como identidade política

Em 2018, esse padrão ganhou outra dimensão. Jair Bolsonaro construiu uma linguagem política diretamente ligada ao conservadorismo cristão, com referências a Deus, à família, ao combate à chamada ideologia de gênero e à defesa de valores tradicionais. O apoio evangélico foi um dos pilares de sua vitória, embora não explique, isoladamente, o resultado eleitoral.

Em 2022, a religião permaneceu no centro. Bolsonaro conservou ampla preferência entre evangélicos, enquanto Lula obteve melhor desempenho entre católicos e entre pessoas sem religião. A campanha foi marcada por disputas sobre fechamento de igrejas, liberdade religiosa, aborto e costumes, muitas vezes sustentadas por conteúdos falsos ou distorcidos. O próprio fato de Lula ter divulgado uma carta dirigida aos evangélicos revelou o peso político que o segmento havia adquirido.

O dado decisivo é que o voto religioso não funciona como uma sentença. Bolsonaro teve maioria entre evangélicos em 2022, mas Lula venceu a eleição. A religião influencia preferências e estratégias, mas convive com renda, emprego, inflação, rejeição, avaliação de governo, território, raça, gênero e trajetória partidária. Uma campanha que ignore a fé perde parte do país. Uma análise que reduza o país à fé perde quase tudo o mais.

A disputa por Nossa Senhora Aparecida

É nesse contexto que deve ser lida a atual polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Nos últimos dias, circulou nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do país. A Justiça Eleitoral inicialmente determinou a remoção de publicações relacionadas ao fato. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, anulou a decisão e determinou o restabelecimento das publicações, com fundamento na liberdade de expressão e na liberdade religiosa.

O episódio tem importância política. Ele mostra como um símbolo religioso de alcance nacional pode transformar-se em combustível eleitoral quase instantaneamente. A disputa não é apenas sobre uma lei ou uma publicação. É sobre pertencimento, identidade e a possibilidade de se apresentar o adversário como hostil a algo profundamente incorporado à memória afetiva de milhões de brasileiros.

O monitoramento de redes reportado pela Folha de São Paulo mostra que o tema da padroeira deslocou, ao lado das apostas esportivas, a atenção da reta final da campanha. A controvérsia cresceu especialmente no X e ampliou sua circulação depois das decisões judiciais. É o efeito Streisand, um fenômeno conhecido dos ambientes digitais: a tentativa de censurar um conteúdo pode, paradoxalmente, aumentar seu alcance.

Há, ainda, um dado eleitoral relevante. No recorte por religião da pesquisa BTG/Nexus, realizada entre 25 e 27 de setembro, Lula aparece com 50% das intenções de voto entre católicos, contra 26% de Flávio Bolsonaro. Entre evangélicos, a relação se inverte. Flávio tem 50%, e Lula, 31%.

No segundo turno, o contraste permanece. Lula marca 52% entre católicos, diante de 39% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio alcança 57%, e Lula, 35%. A pesquisa registra que os católicos representaram 50% da amostra e os evangélicos, 28%. A Nexus menciona os acontecimentos recentes ao apresentar os dados, mas não é possível atribuir a eles, isoladamente, as oscilações observadas nem afirmar que essas diferenças permanecerão até a eleição. Pesquisa revela tendências e diferenças entre grupos, mas não prova, por si só, causalidade. A controvérsia sobre a padroeira pode mobilizar identidades, ampliar rejeições ou reforçar convicções já existentes. Não é possível afirmar, contudo, que ela definirá a escolha do eleitorado.

A urna não é um altar

A história brasileira recomenda duas conclusões simultâneas. A primeira é que religião importa. Ela organiza comunidades, oferece vocabulário moral, cria lideranças, ativa emoções e pode alterar o curso de uma campanha. Ignorá-la é não compreender uma parte decisiva da sociedade brasileira.

A segunda é que o eleitor não cabe em um púlpito. Católicos não são monolíticos. Evangélicos tampouco. A adesão religiosa não cancela interesses materiais, experiências de vida, preferências ideológicas ou avaliações concretas de governo.

A urna não é um altar. Mas, em momentos decisivos, a política sabe muito bem como entrar nele.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Suprema Corte

Charge do Duke

O país parou:
pela primeira vez,
um juiz da nação
pode ser investigado.

Um banqueiro atravessa a toga,
a República perde o prumo.
Ministros trocam acusações,
e o plenário produz
um mal-estar cívico,
profundo e consternado.

Um juiz chora.
Outro ergue a voz:
“Não levante o dedo para mim.”
Mas já não há gesto pequeno
quando a própria Corte
discute os seus limites.

A única mulher alerta:
não se destrói uma Corte
sem ferir a esperança
de quem ainda espera Justiça.

Cinco ministros,
uma eleição polarizada,
jornalistas sem sono,
o país em vigília.

O Judiciário pede reforma.
A sessão pede silêncio.

E, antes da resposta,
um ministro pede vista.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Guerra Fria Institucional

 
“Os Guerreiros”, de Bruno Giorgi

No Planalto, a fumaça não vem de canhão:
sobe dos autos, das notas, dos celulares,
dos corredores onde a República
aprendeu a falar em off.

A polícia dispara um relatório —
papel que atravessa mármores,
atinge a relatoria,
instala a suspeição
no peito blindado do Supremo.
Não há sangue na toga,
mas há pólvora na assinatura.

Numa sala fechada,
a Constituição perde o silêncio:
vozes de ministros, frases calculadas,
um encontro sem ata para a história,
mas não sem ouvidos.
Vaza a reunião, e cada palavra
vira prova, versão, ameaça,
espelho quebrado da confiança.

Um sai — ou é retirado
pela geometria impiedosa das aparências.
Outro recebe os papéis,
outro surge entre mensagens e suspeitas,
nomes que circulam no fio invisível
entre inquérito e denúncia.
Numa crise, até a negativa
ganha estatuto de manchete.

No Senado, o impeachment é convocado
como tambor de uma guerra sem quartel:
não se derruba apenas um ministro,
testa-se a altura de cada Poder,
mede-se quem vigia, quem reage,
quem pode acusar sem ser acusado.

E o Ministério Público,
chamado a separar fato e interesse,
é puxado ao centro do redemoinho:
quem fiscaliza também precisa explicar
seus passos, seus vínculos, seus silêncios,
quando a política transforma procedimento
em munição.

É ano eleitoral —
e o país inteiro parece uma urna aberta
antes da hora:
cada escândalo pede voto,
cada vazamento escolhe um lado,
cada silêncio é lido como aliança.

Brasil: república de arquivos,
áudios, dossiês e versões;
país em que a notícia chega algemada
ao tribunal da torcida.

Não há tanques na Praça dos Três Poderes.
Há algo mais brasileiro e mais perigoso:
instituições armadas de desconfiança,
combatendo sob a bandeira da legalidade,
enquanto o povo, entre o espanto e o cansaço,
assiste à Guerra Fria Institucional.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Urna e o Palácio

Na boca do outono, o Rio Grande entra em campanha
e o Piratini finge que virou praça,
quando continua sendo sala de reunião de poucos.

Um perfil aparece como figura de fundo:
serve para ilustrar democracia de catálogo,
não para disputar projeto de poder.

Outro veste figurino importado de guerra cultural:
fala em liberdade com sotaque estrangeiro,
vende tarifaço como solução,
promete Estado enxuto enquanto engorda banco e consulado.

Há o candidato das pesquisas ingratas:
não sobe em número algum, por isso sobe o tom.
Produto de gabinete, descobre de repente
que precisa conversar com lotação, periferia, chão de fábrica.
Vende gestão, entrega continuidade do mesmo condomínio de poder.

E há uma candidatura que traz memória no sobrenome,
herança de comício em praça, de escola como direito,
de salário como compromisso.
Não é mito de museu, é aposta de trabalhismo vivo,
de povo no centro da equação.

No papel, são quatro opções.
Na prática, é teste de coragem histórica:
figurante que legitima o espetáculo,
eco submisso de tarifaço estrangeiro,
gestão ansiosa pra manter a engrenagem,
ou esperança que não pede desculpa por ser popular.

A urna não pergunta nomes,
pergunta se o Rio Grande ainda se lembra
que já foi laboratório de ousadia
e não apenas administrador educado
do próprio declínio.

domingo, 26 de julho de 2026

Enchentes no Rio Grande do Sul revelam o custo do improviso

O debate sobre cheias no Estado precisa sair da comoção e entrar no terreno das decisões duras

As enchentes recentes no Rio Grande do Sul voltaram a expor uma questão que o poder público brasileiro costuma deixar para depois. Como montar uma política séria de prevenção à inundação? O problema não é só técnico. Envolve instituições, orçamento, disputa eleitoral e capacidade estatal de antecipar risco antes que a água suba.

O debate público precisa abandonar a ilusão de que existe uma solução mágica. O que países que convivem há décadas com esse tipo de ameaça fizeram foi reunir respostas diferentes, de acordo com seu território, seus riscos e sua capacidade de gestão. É essa combinação que pode enriquecer a resposta gaúcha. O RS não precisa escolher entre engenharia pesada, drenagem urbana inteligente e soluções baseadas na natureza. Precisa articular essas frentes dentro de uma política contínua, com comando claro, financiamento estável e cobrança social permanente.

A experiência da Holanda é emblemática. Lá, a proteção contra a água não aparece como obra extraordinária, mas como rotina de Estado. Diques, comportas, bombas, canais, monitoramento e manutenção compõem um sistema que exige vigilância diária. A lição holandesa é simples. Não basta erguer barreiras. É preciso administrar o território com a consciência de que a água sempre buscará seu espaço. Em um estado como o RS, especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, essa mentalidade é decisiva. Obras isoladas pouco resolvem sem planejamento permanente e manutenção rigorosa.

O Japão oferece outra referência. Em vez de confiar apenas em canais superficiais, o país desenvolveu sistemas subterrâneos de desvio e reservação capazes de absorver volumes enormes de água em eventos extremos. Trata-se de engenharia de alta complexidade, pensada para metrópoles densas, impermeabilizadas e expostas a chuvas intensas. Essa lógica pode inspirar o RS nas áreas urbanas mais vulneráveis, onde a simples canalização já não acompanha a força dos eventos climáticos. Túneis de contenção, reservatórios de detenção e estruturas de amortecimento podem ser fundamentais, desde que venham acompanhados de boa gestão e manutenção.

Já o conceito de cidade-esponja amplia o debate para além da obra dura. Ele propõe que a própria cidade absorva parte da água da chuva por meio de pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes, praças alagáveis e áreas de retenção. Em vez de escoar a água depressa, como faz o urbanismo tradicional, a cidade-esponja procura segurar, infiltrar e reutilizar. O modelo é especialmente relevante porque enfrenta um problema estrutural do RS, a impermeabilização crescente do solo, resultado de décadas de ocupação desordenada e política urbana equivocada.

No Vale do Taquari, o eixo principal precisa ser o alerta precoce, o monitoramento hidrológico e a evacuação rápida. Há territórios em que não faz sentido imaginar que todas as cheias serão contidas por grandes obras. Nesses casos, a prioridade deve ser salvar vidas, reduzir danos e reorganizar a ocupação do solo. Sirenes, sensores, boletins em tempo real, rotas de fuga e protocolos claros de emergência são tão importantes quanto obras de contenção. Quando a cheia avança rápido, o que separa proteção de tragédia é a antecipação.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas técnica e entra no campo político. A prevenção de enchentes depende de decisão pública, e decisão pública depende de disputa eleitoral, prioridade orçamentária e pressão social. Governos gostam de inaugurar obras, mas tendem a negligenciar aquilo que não rende foto. Manutenção, mapeamento de risco, fiscalização do uso do solo e modernização da defesa civil costumam ficar em segundo plano. Pesquisadores, universidades, órgãos de controle, movimentos sociais, jornalistas e entidades da sociedade civil precisam ocupar esse espaço de cobrança antes da próxima tragédia, e não apenas depois dela.

As eleições deveriam servir justamente para isso. Cobrar compromissos concretos. Prefeitos, governadores e parlamentares precisam dizer qual modelo de drenagem pretendem adotar, quais áreas serão protegidas com obras estruturais, onde entram soluções baseadas na natureza, quais comunidades precisam ser reassentadas, quem fará a manutenção e quem fiscalizará as metas. Sem resposta objetiva, o discurso vira administração da memória do desastre.

O RS tem diante de si a chance de transformar uma dor histórica em virada institucional. Mas isso exige maturidade pública. Exige abandonar a lógica do improviso, da reação tardia e da promessa eleitoreira. Exige aprender com a Holanda a importância da governança hídrica contínua, com o Japão a força da engenharia subterrânea e com a cidade-esponja a necessidade de redesenhar o espaço urbano para conviver com a água, e não apenas combatê-la.

A enchente não é só o momento em que o rio transborda. É também o momento em que o Estado revela seus limites. E talvez seja exatamente por isso que a resposta precise ser maior do que a tragédia: mais técnica, mais política, mais institucional e mais honesta com o futuro, porque a conta final, em bilhões de reais, quem paga é o contribuinte, e quando a omissão se agrava, paga também com a própria vida.

Medidas para o RS

  • Reforçar e elevar diques, comportas e casas de bombas em Porto Alegre e no entorno do Guaíba, com revisão de pontos de falha e redundância elétrica e mecânica.
  • Ampliar o sistema de alerta hidrológico no Vale do Taquari, com mais estações, modelagem em tempo real e sirenes em áreas urbanas e rurais de evacuação difícil.
  • Implantar zonas de retenção, parques de inundação e pavimentos permeáveis em áreas urbanas, seguindo o conceito de cidade-esponja, para reduzir picos de escoamento superficial.
  • Fazer o mapeamento fino de risco, com reassentamento progressivo de famílias em cota crítica e proibição de nova ocupação nas faixas de inundação recorrente.
  • Criar um plano operacional unificado entre Defesa Civil, prefeituras, Estado e concessionárias, com protocolos automáticos de resposta, evacuação e restabelecimento.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Renovação da ALRS preserva estruturas de poder no século XXI

 

Imagem  meramente ilustrativa

Sucessão de legislaturas revela alternância limitada e continuidade de grupos políticos em um contexto de crise de representatividade no país

A renovação da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul tem sido mais contida do que transformadora. Considerando o século XXI, com início na 50ª legislatura, a troca de parlamentares permaneceu em patamar moderado, sem produzir ruptura significativa na composição política da Casa.

Os dados mostram que, da 50ª à 56ª legislatura, a taxa estimada de renovação girou em torno de 40% a 50%. O padrão indica estabilidade na reposição de cadeiras e sugere que a alternância eleitoral ocorreu sem mudanças mais profundas na estrutura de poder do parlamento gaúcho.

Taxa estimada de renovação da ALRS no século XXI

Legislatura

Renovação estimada

50ª (1999–2003)

---

51ª (2003–2007)

50%

52ª (2007–2011)

40–50%

53ª (2011–2015)

40–50%

54ª (2015–2019)

40–50%

55ª (2019–2023)

40–50%

56ª (2023–2027)

40–50%

A ALRS entrou no século XXI sem experimentar ondas consistentes de renovação ampla. Em vez disso, observa-se mera substituição parcial de nomes, com parte das cadeiras mudando de mãos, mas sem alteração significativa na estrutura política do parlamento.

Esse dado ganha relevância porque este século é marcado pela revolução digital, pela expansão da internet, pela globalização e por grandes transformações geopolíticas. Nesse contexto, a dinâmica da representação política no RS aparece em ritmo mais lento que o das mudanças sociais, tecnológicas e culturais do período, o que amplia a percepção de descompasso entre sociedade e sistema político.

Mais do que um dado estatístico, esse padrão de renovação limitada se insere em uma crise de representatividade mais ampla, marcada por abstenção significativa e descrença nas instituições. A permanência de nomes por vários mandatos reforça, nesse cenário, a percepção de distância entre o eleitorado e seus representantes.

A baixa renovação também se relaciona a mecanismos estruturais de poder, como o peso das nominatas partidárias, a visibilidade acumulada por quem já ocupa mandato e a reprodução de grupos políticos tradicionais. Na prática, esses fatores reduzem o espaço para lideranças novas ou dissidentes e tornam a disputa menos aberta do que sugere a mera alternância formal de cadeiras.

Há ainda uma dimensão institucional e histórica mais profunda nessa permanência. A persistência de sobrenomes, grupos familiares e redes duradouras no parlamento gaúcho pode ser lida como expressão de traços patrimonialistas, de laços de parentesco e de formas adaptadas de coronelismo político que atravessam a formação do Estado brasileiro.

Por isso, a renovação de quadros não depende apenas do voto, mas também da abertura interna e reforma dos partidos e da democratização de suas instâncias diretivas. Sem mudanças nesse nível, a alternância tende a continuar limitada, com trocas parciais na superfície e continuidade mais profunda na engrenagem do poder.

Em um século marcado por transformações aceleradas, o desafio que se coloca para a política gaúcha é romper com essa inércia, ampliando a participação social e criando condições reais para que novas lideranças disputem espaço em igualdade de condições. Se os mecanismos que preservam estruturas de poder e reduzem a renovação efetiva da representação não forem enfrentados, a distância entre Parlamento e sociedade tende a aumentar, e a crise de confiança nas instituições a se aprofundar.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Diárias de luxo: quanto custam as viagens dos deputados gaúchos ao contribuinte

Joel Vargas/ALRS

Em 2025, deputados do RS gastaram mais de R$ 2,7 milhões em diárias nacionais e internacionais, sem relatório público que comprove benefícios ao estado.

Em 2025, os deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul consumiram mais de R$ 2,7 milhões em diárias nacionais e internacionais, sem que haja transparência mínima sobre quais políticas públicas efetivas derivaram desses gastos.

Pelo Portal da Transparência, o total pago aos parlamentares alcança cerca de R$ 2,17 milhões, em 2.118,5 diárias nacionais. Cada deputado pode receber até 84 diárias por ano, sendo até 10 internacionais, o que indica que parte da bancada operou no teto máximo previsto pela norma interna da Assembleia Legislativa. As diárias internacionais somaram aproximadamente R$ 598 mil, em 265 diárias pagas, com valores que chegam a US$ 300 na América do Sul e € 400 para Europa, África, Ásia e Oceania, por dia de viagem.

A justificativa oficial é que as diárias cobrem deslocamentos para “missões parlamentares”, reuniões, seminários e agendas institucionais, mas nem o portal da transparência nem os perfis parlamentares informam ao cidadão quais resultados mensuráveis essas viagens produziram para o contribuinte gaúcho. Em um ano marcado por crise fiscal e necessidade de reconstrução pós-enchente, o Legislativo escolheu preservar uma rotina de deslocamentos caros, sem vincular os gastos a metas claras de melhoria em serviços como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura ou proteção social.

Com base no portal da transparência, o ranking dos 10 parlamentares que mais receberam diárias, somando diárias nacionais e internacionais, é o seguinte:


Deputado

Diárias nacionais

Diárias internac.

Valor total aproximado*

1

Pedro Pereira (PSD)

84,0

7,0

R$ 96,8 mil

2

Silvana Covatti (PP)

58,0

10,0

R$ 92,2 mil

3

Rodrigo Lorenzoni (PP)

52,0

10,0

R$ 86,8 mil

4

Sergio Peres (Republicanos)

60,0

8,0

R$ 70,1 mil

5

Gerson Burmann (PDT)

61,0

0

R$ 49,3 mil (só nacionais)

6

Guilherme Pasin (PP)

42,0

10,0

R$ 74,4 mil

7

Elton Weber (PSD)

64,5

0

R$ 53,6 mil (só nacionais)

8

Elizandro Sabino (Republicanos)

55,5

10,0

R$ 82,6 mil

9

Marcus Vinícius (PP)

44,0

7,0

R$ 63,9 mil

10

Luciano Silveira (MDB)

45,0

0

R$ 39,2 mil (só nacionais)

O dado mais eloquente é que nenhum desses parlamentares recolheu diárias, todas foram integralmente usadas, o que reforça a sensação de que o mecanismo se transformou em complemento automático de remuneração, e não em recurso excepcional para situações em que a presença física do deputado é indispensável.

Quando se confronta esse mapa de gastos com os perfis oficiais da 56ª Legislatura, o contraste é evidente. Deputados que se apresentam como defensores da “responsabilidade fiscal”, do “respeito ao dinheiro público” ou da “redução do tamanho do Estado” aparecem entre os campeões de diárias, desfrutando de uma prerrogativa pouco controlada justamente em áreas como viagens internacionais e agendas em outros estados.

Há também casos em que o discurso é de “mandato municipalista”, centrado em infraestrutura, saúde ou agricultura familiar, mas a rotina de deslocamentos pagos pela Assembleia se concentra em viagens que não têm resultados claramente associados a um hospital construído, uma rodovia entregue ou uma política social implementada no RS.

O desenho atual da política de diárias é permissivo: autoriza até 84 diárias por ano para cada deputado, com 10 internacionais e regra que admite até cinco viagens para países do Mercosul, desde que aprovadas pela Comissão e pela Mesa. Mas não exige que o parlamentar publique relatório detalhado da missão, nem que demonstre o impacto da viagem sobre a formulação de leis, o controle de gastos do Executivo ou a melhoria de serviços públicos.

Sem essa contrapartida, as diárias se convertem em benefício corporativo típico de uma elite política blindada, distante da realidade de servidores e cidadãos que arcam com cortes, congelamentos salariais e precarização de políticas de base. Em termos de accountability, a Assembleia continua tratando deslocamentos como assunto interno, quando deveriam ser vistos como investimentos públicos cuja legitimidade depende de comprovação de retorno.

A consequência é que o contribuinte gaúcho paga por um Parlamento que viaja muito, gasta alto com diárias e, ao mesmo tempo, não oferece evidências de que essas viagens reduzem filas de hospitais, melhoram a qualidade das escolas ou aceleram obras de infraestrutura essenciais. A pergunta que fica é simples: até quando o Rio Grande do Sul aceitará financiar diárias de luxo sem exigir que cada passagem emitida se traduza em política pública real?