“Os Guerreiros”, de Bruno Giorgi
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Guerra Fria Institucional
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
A Urna e o Palácio
domingo, 26 de julho de 2026
Enchentes no Rio Grande do Sul revelam o custo do improviso
O debate sobre cheias no Estado precisa sair da comoção e entrar no terreno das decisões duras
As enchentes recentes no Rio Grande do
Sul voltaram a expor uma questão que o poder público brasileiro costuma deixar
para depois. Como montar uma política séria de prevenção à inundação? O
problema não é só técnico. Envolve instituições, orçamento, disputa eleitoral e
capacidade estatal de antecipar risco antes que a água suba.
O debate público precisa abandonar a
ilusão de que existe uma solução mágica. O que países que convivem há décadas
com esse tipo de ameaça fizeram foi reunir respostas diferentes, de acordo com
seu território, seus riscos e sua capacidade de gestão. É essa combinação que
pode enriquecer a resposta gaúcha. O RS não precisa escolher entre engenharia
pesada, drenagem urbana inteligente e soluções baseadas na natureza. Precisa
articular essas frentes dentro de uma política contínua, com comando claro,
financiamento estável e cobrança social permanente.
A experiência da Holanda é emblemática. Lá,
a proteção contra a água não aparece como obra extraordinária, mas como rotina
de Estado. Diques, comportas, bombas, canais, monitoramento e manutenção
compõem um sistema que exige vigilância diária. A lição holandesa é simples.
Não basta erguer barreiras. É preciso administrar o território com a
consciência de que a água sempre buscará seu espaço. Em um estado como o RS,
especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, essa mentalidade é
decisiva. Obras isoladas pouco resolvem sem planejamento permanente e
manutenção rigorosa.
O Japão oferece outra referência. Em vez
de confiar apenas em canais superficiais, o país desenvolveu sistemas
subterrâneos de desvio e reservação capazes de absorver volumes enormes de água
em eventos extremos. Trata-se de engenharia de alta complexidade, pensada para
metrópoles densas, impermeabilizadas e expostas a chuvas intensas. Essa lógica
pode inspirar o RS nas áreas urbanas mais vulneráveis, onde a simples
canalização já não acompanha a força dos eventos climáticos. Túneis de
contenção, reservatórios de detenção e estruturas de amortecimento podem ser
fundamentais, desde que venham acompanhados de boa gestão e manutenção.
Já o conceito de cidade-esponja amplia o
debate para além da obra dura. Ele propõe que a própria cidade absorva parte da
água da chuva por meio de pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados
verdes, praças alagáveis e áreas de retenção. Em vez de escoar a água depressa,
como faz o urbanismo tradicional, a cidade-esponja procura segurar, infiltrar e
reutilizar. O modelo é especialmente relevante porque enfrenta um problema
estrutural do RS, a impermeabilização crescente do solo, resultado de décadas
de ocupação desordenada e política urbana equivocada.
No Vale do Taquari, o eixo principal
precisa ser o alerta precoce, o monitoramento hidrológico e a evacuação rápida.
Há territórios em que não faz sentido imaginar que todas as cheias serão
contidas por grandes obras. Nesses casos, a prioridade deve ser salvar vidas,
reduzir danos e reorganizar a ocupação do solo. Sirenes, sensores, boletins em
tempo real, rotas de fuga e protocolos claros de emergência são tão importantes
quanto obras de contenção. Quando a cheia avança rápido, o que separa proteção
de tragédia é a antecipação.
É nesse ponto que a discussão deixa de
ser apenas técnica e entra no campo político. A prevenção de enchentes depende
de decisão pública, e decisão pública depende de disputa eleitoral, prioridade
orçamentária e pressão social. Governos gostam de inaugurar obras, mas tendem a
negligenciar aquilo que não rende foto. Manutenção, mapeamento de risco,
fiscalização do uso do solo e modernização da defesa civil costumam ficar em
segundo plano. Pesquisadores, universidades, órgãos de controle, movimentos
sociais, jornalistas e entidades da sociedade civil precisam ocupar esse espaço
de cobrança antes da próxima tragédia, e não apenas depois dela.
As eleições deveriam servir justamente
para isso. Cobrar compromissos concretos. Prefeitos, governadores e
parlamentares precisam dizer qual modelo de drenagem pretendem adotar, quais
áreas serão protegidas com obras estruturais, onde entram soluções baseadas na
natureza, quais comunidades precisam ser reassentadas, quem fará a manutenção e
quem fiscalizará as metas. Sem resposta objetiva, o discurso vira administração
da memória do desastre.
O RS tem diante de si a chance de
transformar uma dor histórica em virada institucional. Mas isso exige
maturidade pública. Exige abandonar a lógica do improviso, da reação tardia e
da promessa eleitoreira. Exige aprender com a Holanda a importância da governança
hídrica contínua, com o Japão a força da engenharia subterrânea e com a
cidade-esponja a necessidade de redesenhar o espaço urbano para conviver com a
água, e não apenas combatê-la.
A enchente não é só o momento em que o
rio transborda. É também o momento em que o Estado revela seus limites. E
talvez seja exatamente por isso que a resposta precise ser maior do que a
tragédia: mais técnica, mais política, mais institucional e mais honesta com o
futuro, porque a conta final, em bilhões de reais, quem paga é o contribuinte, e quando a omissão se agrava, paga também com a própria vida.
Medidas para o RS
- Reforçar
e elevar diques, comportas e casas de bombas em Porto Alegre e no entorno
do Guaíba, com revisão de pontos de falha e redundância elétrica e
mecânica.
- Ampliar
o sistema de alerta hidrológico no Vale do Taquari, com mais estações,
modelagem em tempo real e sirenes em áreas urbanas e rurais de evacuação
difícil.
- Implantar
zonas de retenção, parques de inundação e pavimentos permeáveis em áreas
urbanas, seguindo o conceito de cidade-esponja, para reduzir picos de
escoamento superficial.
- Fazer o
mapeamento fino de risco, com reassentamento progressivo de famílias em
cota crítica e proibição de nova ocupação nas faixas de inundação
recorrente.
- Criar
um plano operacional unificado entre Defesa Civil, prefeituras, Estado e
concessionárias, com protocolos automáticos de resposta, evacuação e
restabelecimento.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Renovação da ALRS preserva estruturas de poder no século XXI
Imagem meramente ilustrativa
Sucessão de legislaturas revela alternância limitada e
continuidade de grupos políticos em um contexto de crise de representatividade no
país
A renovação da Assembleia Legislativa do
Rio Grande do Sul tem sido mais contida do que transformadora. Considerando o
século XXI, com início na 50ª legislatura, a troca de parlamentares permaneceu
em patamar moderado, sem produzir ruptura significativa na composição política
da Casa.
Os dados mostram que, da 50ª à 56ª
legislatura, a taxa estimada de renovação girou em torno de 40% a 50%. O padrão
indica estabilidade na reposição de cadeiras e sugere que a alternância
eleitoral ocorreu sem mudanças mais profundas na estrutura de poder do
parlamento gaúcho.
Taxa estimada de renovação da ALRS no século XXI
|
Legislatura |
Renovação estimada |
|
50ª (1999–2003) |
--- |
|
51ª (2003–2007) |
50% |
|
52ª (2007–2011) |
40–50% |
|
53ª (2011–2015) |
40–50% |
|
54ª (2015–2019) |
40–50% |
|
55ª (2019–2023) |
40–50% |
|
56ª (2023–2027) |
40–50% |
A ALRS entrou no
século XXI sem experimentar ondas consistentes de renovação ampla. Em vez
disso, observa-se mera substituição parcial de nomes, com parte das cadeiras
mudando de mãos, mas sem alteração significativa na estrutura política do
parlamento.
Esse dado ganha
relevância porque este século é marcado pela revolução digital, pela expansão
da internet, pela globalização e por grandes transformações geopolíticas. Nesse
contexto, a dinâmica da representação política no RS aparece em ritmo mais
lento que o das mudanças sociais, tecnológicas e culturais do período, o que
amplia a percepção de descompasso entre sociedade e sistema político.
Mais do que um
dado estatístico, esse padrão de renovação limitada se insere em uma crise de
representatividade mais ampla, marcada por abstenção significativa e descrença
nas instituições. A permanência de nomes por vários mandatos reforça, nesse
cenário, a percepção de distância entre o eleitorado e seus representantes.
A baixa
renovação também se relaciona a mecanismos estruturais de poder, como o peso
das nominatas partidárias, a visibilidade acumulada por quem já ocupa mandato e
a reprodução de grupos políticos tradicionais. Na prática, esses fatores
reduzem o espaço para lideranças novas ou dissidentes e tornam a disputa menos
aberta do que sugere a mera alternância formal de cadeiras.
Há ainda uma
dimensão institucional e histórica mais profunda nessa permanência. A
persistência de sobrenomes, grupos familiares e redes duradouras no parlamento
gaúcho pode ser lida como expressão de traços patrimonialistas, de laços de
parentesco e de formas adaptadas de coronelismo político que atravessam a
formação do Estado brasileiro.
Por isso, a
renovação de quadros não depende apenas do voto, mas também da abertura interna
e reforma dos partidos e da democratização de suas instâncias diretivas. Sem
mudanças nesse nível, a alternância tende a continuar limitada, com trocas
parciais na superfície e continuidade mais profunda na engrenagem do poder.
Em um século marcado por transformações aceleradas, o desafio que se coloca para a política gaúcha é romper com essa inércia, ampliando a participação social e criando condições reais para que novas lideranças disputem espaço em igualdade de condições. Se os mecanismos que preservam estruturas de poder e reduzem a renovação efetiva da representação não forem enfrentados, a distância entre Parlamento e sociedade tende a aumentar, e a crise de confiança nas instituições a se aprofundar.
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Diárias de luxo: quanto custam as viagens dos deputados gaúchos ao contribuinte
Em 2025, deputados do RS gastaram mais de R$ 2,7 milhões em diárias nacionais e internacionais, sem relatório público que comprove benefícios ao estado.
Em 2025, os deputados estaduais da
Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul consumiram mais de R$ 2,7 milhões
em diárias nacionais e internacionais, sem que haja transparência mínima sobre
quais políticas públicas efetivas derivaram desses gastos.
Pelo Portal da Transparência, o total
pago aos parlamentares alcança cerca de R$ 2,17 milhões, em 2.118,5 diárias
nacionais. Cada deputado pode receber até 84 diárias por ano, sendo até 10
internacionais, o que indica que parte da bancada operou no teto máximo
previsto pela norma interna da Assembleia Legislativa. As diárias
internacionais somaram aproximadamente R$ 598 mil, em 265 diárias pagas, com
valores que chegam a US$ 300 na América do Sul e € 400 para Europa, África,
Ásia e Oceania, por dia de viagem.
A justificativa oficial é que as diárias cobrem deslocamentos para “missões parlamentares”, reuniões, seminários e agendas institucionais, mas nem o portal da transparência nem os perfis parlamentares informam ao cidadão quais resultados mensuráveis essas viagens produziram para o contribuinte gaúcho. Em um ano marcado por crise fiscal e necessidade de reconstrução pós-enchente, o Legislativo escolheu preservar uma rotina de deslocamentos caros, sem vincular os gastos a metas claras de melhoria em serviços como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura ou proteção social.
Com base no portal da transparência, o
ranking dos 10 parlamentares que mais receberam diárias, somando diárias
nacionais e internacionais, é o seguinte:
|
|
Deputado |
Diárias nacionais |
Diárias internac. |
Valor total aproximado* |
|
1 |
Pedro Pereira
(PSD) |
84,0 |
7,0 |
R$ 96,8 mil |
|
2 |
Silvana
Covatti (PP) |
58,0 |
10,0 |
R$ 92,2 mil |
|
3 |
Rodrigo
Lorenzoni (PP) |
52,0 |
10,0 |
R$ 86,8 mil |
|
4 |
Sergio Peres (Republicanos) |
60,0 |
8,0 |
R$ 70,1 mil |
|
5 |
Gerson Burmann
(PDT) |
61,0 |
0 |
R$ 49,3 mil
(só nacionais) |
|
6 |
Guilherme
Pasin (PP) |
42,0 |
10,0 |
R$ 74,4 mil |
|
7 |
Elton Weber (PSD) |
64,5 |
0 |
R$ 53,6 mil
(só nacionais) |
|
8 |
Elizandro
Sabino (Republicanos) |
55,5 |
10,0 |
R$ 82,6 mil |
|
9 |
Marcus
Vinícius (PP) |
44,0 |
7,0 |
R$ 63,9 mil |
|
10 |
Luciano
Silveira (MDB) |
45,0 |
0 |
R$ 39,2 mil
(só nacionais) |
O dado mais eloquente é que nenhum
desses parlamentares recolheu diárias, todas foram integralmente usadas, o que
reforça a sensação de que o mecanismo se transformou em complemento automático
de remuneração, e não em recurso excepcional para situações em que a presença
física do deputado é indispensável.
Quando se
confronta esse mapa de gastos com os perfis oficiais da 56ª Legislatura, o
contraste é evidente. Deputados que se apresentam como defensores da
“responsabilidade fiscal”, do “respeito ao dinheiro público” ou da “redução do
tamanho do Estado” aparecem entre os campeões de diárias, desfrutando de uma
prerrogativa pouco controlada justamente em áreas como viagens internacionais e
agendas em outros estados.
Há também casos
em que o discurso é de “mandato municipalista”, centrado em infraestrutura,
saúde ou agricultura familiar, mas a rotina de deslocamentos pagos pela
Assembleia se concentra em viagens que não têm resultados claramente associados
a um hospital construído, uma rodovia entregue ou uma política social
implementada no RS.
O desenho atual
da política de diárias é permissivo: autoriza até 84 diárias por ano para cada
deputado, com 10 internacionais e regra que admite até cinco viagens para
países do Mercosul, desde que aprovadas pela Comissão e pela Mesa. Mas não
exige que o parlamentar publique relatório detalhado da missão, nem que
demonstre o impacto da viagem sobre a formulação de leis, o controle de gastos
do Executivo ou a melhoria de serviços públicos.
Sem essa
contrapartida, as diárias se convertem em benefício corporativo típico de uma
elite política blindada, distante da realidade de servidores e cidadãos que
arcam com cortes, congelamentos salariais e precarização de políticas de base.
Em termos de accountability, a Assembleia continua tratando deslocamentos como
assunto interno, quando deveriam ser vistos como investimentos públicos cuja
legitimidade depende de comprovação de retorno.
A consequência é que o contribuinte gaúcho paga por um Parlamento que viaja muito, gasta alto com diárias e, ao mesmo tempo, não oferece evidências de que essas viagens reduzem filas de hospitais, melhoram a qualidade das escolas ou aceleram obras de infraestrutura essenciais. A pergunta que fica é simples: até quando o Rio Grande do Sul aceitará financiar diárias de luxo sem exigir que cada passagem emitida se traduza em política pública real?
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Desigualdade salarial e o custo da corrupção
Carreiras do topo concentram renda e ampliam o espaço para corrupção. Corrigir essa distorção é requisito básico de uma agenda anticorrupção séria no Brasil.
O Brasil é um dos países em que aumentar salários do funcionalismo, sem mexer na desigualdade interna da folha, tende a piorar, e não a melhorar, os níveis de corrupção. É o que mostram evidências recentes do Banco Mundial.
Salários, desigualdade e corrupção
O estudo “Effects of Public Sector Wages on Corruption: Wage Inequality Matters” analisou dados de 132 países entre 2000 e 2019 para responder a uma pergunta incômoda: subir salário de servidor realmente ajuda a combater a corrupção? A resposta depende de como esses salários são distribuídos dentro do próprio Estado.
Em vez de olhar apenas para o valor médio pago ao funcionalismo, os autores cruzaram três grandes índices de percepção de corrupção (WGI, WEF e Transparência Internacional) com duas variáveis centrais: o prêmio salarial público‑privado e a desigualdade da estrutura salarial entre servidores.
A métrica que coloca o Brasil no topo da desigualdade
O ponto‑chave do trabalho é o “wage compression ratio”, a razão entre o salário do 90º percentil e o do 10º percentil dentro do setor público. Em termos simples, é uma medida de quão distante está o topo da carreira em relação à base.
Nos países da amostra, essa razão varia de cerca de 2,4, em casos como Eslováquia e Croácia, com estrutura mais igualitária, a mais de 10. O Brasil aparece entre os campeões de desigualdade, com compressão salarial em torno de 9,5, ao lado da Rússia, com 10,3, na lista de administrações públicas mais desiguais do mundo em termos de distribuição interna de salários.
Ao mesmo tempo, os dados mostram que, em média, servidores públicos ganham mais que seus comparáveis no setor privado, com prêmio de cerca de 5,6% quando se compara apenas trabalhadores formais, chegando a 15,1% se incluída a mão de obra informal. Em carreiras de topo, como magistratura e Ministério Público, esse diferencial aparece com força também nos dados da Receita Federal, que mostram patrimônio e renda muito acima da média dos demais declarantes.
Quando aumentar salários reduz ou aumenta a corrupção
O resultado mais provocador do estudo é que não há relação simples e linear entre salário alto e menor corrupção. O efeito dos salários sobre a corrupção depende da desigualdade interna da folha.
Simulações feitas pelos autores mostram que, em países com baixa desigualdade salarial, com compressão próxima de 1, um aumento no prêmio salarial público‑privado tende a reduzir significativamente os índices de corrupção. Com razões de compressão até cerca de 5, aumentos salariais ainda têm efeito anticorrupção ou neutro.
Acima de um patamar crítico, a curva se inverte. Com compressão superior a 6, a desigualdade passa a dominar o efeito do salário. Em estruturas muito desiguais, como a brasileira, elevar salários públicos tende a aumentar a corrupção medida pelos indicadores internacionais.
Albânia x Brasil
Para tornar essa discussão menos abstrata, o estudo simula políticas em países com perfis distintos. A Albânia é o exemplo de um Estado com salários públicos relativamente baixos e estrutura salarial mais comprimida. Nessa configuração, dobrar os salários dos servidores, mantendo a desigualdade constante, reduziria o índice de corrupção WGI de 0,74 para 0,52, queda de cerca de 42%, aproximando o país do patamar da Itália.
Quando os autores repetem o exercício para o Brasil, o cenário muda completamente. Com compressão salarial pública em torno de 9,5, dobrar os salários não gera efeito anticorrupção. Segundo as simulações, o índice WGI subiria de 0,65 para 0,88, aumento de aproximadamente 26%, colocando o país em patamar semelhante ao de Honduras ou Rússia em termos de percepção da corrupção.
A mensagem é clara: num sistema como o brasileiro, uma política generalizada de reajustes salariais, em contexto de forte desigualdade entre carreiras e cargos, tende, na média internacional, a piorar a percepção de corrupção, porque reforça privilégios e amplia o espaço de simbiose entre elites públicas e privadas.
O que explica o efeito perverso da desigualdade
O estudo oferece algumas hipóteses para explicar por que a desigualdade salarial altera o sentido dos aumentos de remuneração. Uma delas é a “economia política do acesso”. Salários muito altos para uma fração pequena da burocracia ampliam a capacidade desses grupos de frequentar espaços da elite econômica (clubes, círculos de negócios, redes sociais exclusivas) em que se constroem relações que podem ser convertidas em esquemas de corrupção.
Outra explicação recorre à literatura de incentivos. Quando o intervalo entre os salários de alto desempenho e o resto da burocracia é muito amplo, cada aumento proporcional abre maior espaço para barganhas e troca de favores entre chefias e subordinados, aumentando o potencial de conluio e captura de controles internos.
Há ainda um componente simbólico. Estudos experimentais citados pelos autores mostram que, quando agentes de controle percebem que certos grupos recebem salários desproporcionalmente altos, o esforço de fiscalização aumenta e, com isso, sobe a probabilidade de detecção e de percepção da corrupção.
Implicações para o debate brasileiro
Para o cidadão brasileiro, acostumado ao diagnóstico simples de que salários baixos explicam a corrupção, o estudo do Banco Mundial convida a uma reflexão mais profunda. O problema central não é o nível absoluto da remuneração, mas a forma como o Estado organiza sua hierarquia de rendas internas.
Carreiras com salários e benefícios muito acima da média, convivendo com amplos contingentes de servidores de baixa remuneração, criam uma estrutura de incentivos que, na comparação internacional, se aproxima de casos como Rússia e outros países com altos índices de corrupção. Nesse cenário, políticas de aumentos salariais indiscriminados funcionam mais como combustível da corrupção do que como solução. Os dados da Receita sobre patrimônio e renda de cartórios, magistratura e Ministério Público apenas ilustram, em nível micro, o que o painel do Banco Mundial detecta em nível macro.
Reformar a desigualdade salarial
Do ponto de vista de políticas públicas, a lição é que uma estratégia anticorrupção baseada apenas em reajustes salariais é insuficiente e, em contextos como o brasileiro, potencialmente contraproducente. O estudo aponta saídas alternativas.
Uma delas é combinar aumentos moderados com ajustes na estrutura de desigualdade, aproximando a base da carreira dos níveis intermediários e revendo privilégios concentrados em segmentos muito pequenos e altamente remunerados. Outra é fortalecer a qualidade da burocracia e o império da lei: países com instituições de controle mais robustas e carreiras públicas profissionalizadas apresentam, em geral, menos corrupção, independentemente do nível exato de salários.
Mais importante, ao mostrar que o Brasil está no grupo de países em que a desigualdade salarial interna é uma das mais elevadas, o estudo desloca o centro do debate sobre corrupção dos “maus funcionários” para o desenho institucional da própria burocracia. Em vez de perguntar apenas “quanto ganham os servidores?”, a questão passa a ser “como o Estado distribui esse dinheiro dentro de suas carreiras e quem se beneficia dessa desigualdade?”.


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