sexta-feira, 30 de outubro de 2026

A crise da democracia brasileira vai além das urnas

Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

Entre desigualdades, disputas de poder e ataques à legitimidade eleitoral, a crise brasileira expõe os limites da representação e os desafios do controle democrático.

Instituições em funcionamento não bastam para garantir representação legítima. A distância entre cidadãos e poder exige olhar para as escolhas das elites, as desigualdades sociais e os limites dos próprios órgãos de controle.

A crise da democracia brasileira não se resume à corrupção, à instabilidade dos governos ou à insatisfação com os serviços públicos. Esses problemas ganham outra dimensão quando passam a corroer a legitimidade da representação, a aceitação dos resultados eleitorais e a capacidade de resolver conflitos sem excluir adversários da disputa pelo poder.

Uma democracia pode conservar suas instituições e, ainda assim, perder parte de sua substância. Eleições, votações parlamentares e decisões judiciais não asseguram, isoladamente, que os cidadãos tenham suas demandas consideradas ou reconheçam as regras como legítimas. A questão central é a representação: quem consegue influenciar as decisões, quais interesses encontram espaço e como o exercício do poder pode ser fiscalizado.

Compreender essa crise exige conectar três dimensões frequentemente analisadas de maneira separada: o funcionamento das instituições, as estratégias das elites e a relação dos cidadãos com a política. Nenhuma delas oferece, sozinha, uma explicação suficiente.

O sistema não explica tudo

Uma interpretação recorrente atribui as dificuldades brasileiras ao presidencialismo de coalizão. Nesse diagnóstico, a combinação entre um presidente eleito diretamente e um Congresso fragmentado obrigaria o Executivo a construir alianças heterogêneas, elevando os custos da negociação e comprometendo a capacidade de governar.

O problema aparece quando essa descrição se transforma em sentença: se o sistema depende de acordos, estaria necessariamente condenado à paralisia ou à corrupção.

Os cientistas políticos Fernando Limongi e Argelina Figueiredo contestam esse salto. Seus estudos destacam mecanismos que permitem organizar maiorias, como os poderes de agenda do Executivo, a centralização dos trabalhos legislativos e a atuação das lideranças partidárias. Os partidos aliados também participam da formulação das políticas e assumem custos pelo desempenho do governo. Negociar, portanto, não equivale, por definição, a corromper.

A distinção é decisiva. O fato de uma crise ocorrer sob determinado modelo institucional não prova que tenha sido produzida inevitavelmente por ele. É preciso explicar por que o mesmo arranjo permitiu cooperação em alguns períodos e ruptura em outros.

Na análise da crise do segundo governo Dilma Rousseff, por exemplo, Limongi e Figueiredo destacam a necessidade de considerar a deterioração econômica, a radicalização da oposição e a atuação de Eduardo Cunha. O foco deixa de ser uma suposta inviabilidade permanente do sistema e passa a incluir as escolhas dos atores em uma conjuntura específica.

Isso não torna as regras irrelevantes. Instituições distribuem recursos, estabelecem procedimentos e delimitam possibilidades de ação. Mudanças no controle do orçamento, nos mecanismos de responsabilização e na atuação do sistema de justiça também alteram o equilíbrio entre os poderes.

A pergunta, assim, não é apenas se o governo consegue aprovar sua agenda. É quem participa dessa agenda, quais interesses prevalecem e a quem os responsáveis pelas decisões precisam prestar contas. Governabilidade e legitimidade democrática se relacionam, mas não são a mesma coisa.

O voto não elimina a desigualdade de influência

A igualdade diante das urnas convive com profundas diferenças na capacidade de influenciar o Estado. O direito de votar não distribui igualmente os recursos para financiar candidaturas, acessar autoridades, organizar interesses ou ocupar o debate público.

Essa distância ajuda a compreender por que instituições formalmente abertas podem ser percebidas como socialmente fechadas. Quando determinados grupos encontram acesso recorrente às decisões, enquanto outros acumulam demandas sem resposta, o problema não é apenas a dificuldade de governar. É também a seletividade de um governo que decide, mas não responde de maneira equilibrada à sociedade.

A relação dos brasileiros com a democracia precisa ser examinada nesse contexto. Não basta atribuir a desconfiança a uma suposta cultura nacional, permanente e homogênea, incompatível com o regime democrático.

Marcello Baquero e Rodrigo Stumpf González trabalham com o conceito de “democracia inercial” para discutir o descompasso entre mudanças econômicas, funcionamento institucional e consolidação de valores democráticos. A análise dos autores, baseada em dados eleitorais de 2002 a 2014, indica que um período de desempenho econômico favorável não assegurou vínculos democráticos mais sólidos.

O crescimento pode melhorar condições de vida sem produzir, automaticamente, confiança nas instituições. Da mesma forma, o aperfeiçoamento das regras não garante que os cidadãos se reconheçam nos resultados da política.

Mas desconfiança, insatisfação e rejeição à democracia não são sinônimos. Um cidadão pode criticar partidos e parlamentares justamente porque deseja mais participação, transparência e capacidade de resposta. No sentido inverso, alguém pode defender a democracia em termos abstratos e tolerar medidas que restrinjam direitos ou dificultem a alternância no poder.

A questão decisiva é como o descontentamento encontra expressão. Ele pode alimentar reivindicações de inclusão ou ser mobilizado por lideranças que apresentam toda derrota eleitoral e toda decisão desfavorável como prova de que o sistema é ilegítimo. Não existe uma passagem automática da frustração ao autoritarismo: entre uma coisa e outra estão organizações, discursos e escolhas políticas.

Quem controla os controladores?

A crise da representação também exige examinar instituições que não dependem diretamente do voto. Judiciário, Ministério Público, tribunais de contas e órgãos de fiscalização não estão fora da política no sentido amplo: suas decisões integram a distribuição do poder.

Essas instituições podem proteger direitos, fiscalizar governantes e conter iniciativas autoritárias. Isso não dispensa o exame de suas próprias práticas, da concentração de prerrogativas e das condições em que seus integrantes prestam contas.

O debate precisa escapar de duas simplificações. A primeira presume que todo aumento do poder de fiscalização fortalece a democracia. A segunda trata qualquer intervenção de uma instituição não eleita como usurpação da vontade popular.

O critério não pode ser apenas a identidade de quem decide. É necessário observar os procedimentos, a publicidade das razões, o respeito aos direitos e a possibilidade de responsabilização.

Nos tribunais de contas, por exemplo, conhecer as competências legais é apenas parte da análise. Também importa investigar as trajetórias dos dirigentes, as formas de acesso aos cargos e as relações que sustentam sua atuação. A autonomia necessária à fiscalização não pode significar ausência de controle sobre quem fiscaliza.

Prestar contas envolve informar, justificar decisões e estar sujeito a consequências por irregularidades. A oposição abstrata entre “política” e “técnica” pouco esclarece esse problema. A pergunta democrática é como limitar o poder, qualquer que seja a instituição que o exerça.

As redes mudam a mediação, não a eliminam

As transformações da comunicação aproximam as estratégias das elites das percepções dos cidadãos. As plataformas digitais ampliam possibilidades de expressão e mobilização, mas também podem favorecer a circulação de desinformação e narrativas de desqualificação generalizada da política.

A promessa de uma relação direta entre liderança e povo esconde uma contradição. Essa comunicação depende de empresas privadas que organizam a visibilidade dos conteúdos. A mediação não desaparece. Parte dela se desloca para plataformas cujas regras também precisam ser examinadas.

O risco democrático aumenta quando a comunicação direta serve para apresentar partidos, imprensa e instituições de controle como obstáculos ilegítimos à vontade popular. Criticar essas instituições faz parte da democracia. Afirmar que apenas uma liderança representa o povo, retirando legitimidade de todos os seus adversários, ameaça as condições da própria disputa.

Também é preciso distinguir conflito de erosão democrática. Divergências intensas sobre direitos, orçamento e projetos de sociedade não constituem uma doença do regime. A democracia existe para processá-las.

O limite é ultrapassado quando a vitória do adversário deixa de ser reconhecida como possibilidade legítima. Como destacam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, o enfraquecimento democrático pode ser conduzido por lideranças eleitas que utilizam instrumentos institucionais para reduzir controles, liberdades e competição.

Uma democracia capaz de acolher o conflito

As dimensões da crise se reforçam, mas não determinam um desfecho inevitável. Desigualdades e demandas sem resposta podem gerar frustração; lideranças podem transformar essa frustração em rejeição às regras; redes de comunicação podem ampliar esse discurso; e posições de poder podem fornecer os meios para restringir a contestação.

Essa sequência também pode ser interrompida por instituições mais responsivas, fiscalização efetiva e mobilização democrática.

Enfrentar a crise, portanto, exige mais do que substituir governantes ou restaurar maiorias parlamentares. Requer preservar direitos e competição, tornar o poder controlável e ampliar a capacidade da representação de acolher demandas e conflitos sociais.

A democracia não se fortalece pela eliminação da desconfiança ou do dissenso. Fortalece-se quando a crítica pode produzir mudanças sem suprimir a legitimidade do adversário e o direito de disputar o poder.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A eleição


Quinho

Abriu-se a urna. Veio o susto.
No alto, a vitória já tinha dono.
Mas o país que acorda às cinco
saiu às ruas e tirou-lhes o sono.

Banqueiro em escândalo, rombo bilionário.
A culpa dos pobres no editorial.
A imprensa comprada cobrava equilíbrio,
poupando o banqueiro nas páginas do jornal.

O herdeiro vendia a velha receita:
porrete embaixo, privilégio em cima.
O clã, há décadas servido pelo Estado,
sem projeto, pedia mais poder.

O filho do povo voltou às ruas.
Não era um retrato pedindo altar:
era gente cansada de viver de joelhos,
redescobrindo a força de se juntar.

Pelo fim da seis por um, a praça rugia.
O Congresso contava a multidão e cedia.
Quem compra deputado conhece o preço;
quem enfrenta um povo aprende o limite.

Pesquisa a pesquisa, a distância caía.
Na última, empate. Ninguém mais sorria
à mesa dos donos da grande certeza.
O povo chegava sem pedir cadeira.

Domingo. A fila dobrando a escola.
Depois, cada voto. A tela. A tensão.
Até que virou — e o grito guardado
sacudiu as janelas, ganhou a nação.

Não foi o destino. Não foi um presente.
Foi voto, foi rua, foi gente com gente.
O filho do povo
venceu com os seus.
E o povo ficou:
a vitória era sua.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A disputa pela Câmara no RS começa dentro das próprias chapas

 
Agência Brasil

DIAP projeta baixa renovação e aponta maior força para PT-PCdoB-PV, PL e PP-União. Entre os 31 deputados gaúchos, 26 tentam continuar no cargo. Nas chapas menores, há risco de não eleger ninguém

A urna pode renovar a bancada gaúcha na Câmara dos Deputados, mas, antes disso, terá de vencer a força de quem já ocupa o mandato. Dos 31 parlamentares do Rio Grande do Sul, 26 tentam a reeleição em 2026, o equivalente a 83,87% da bancada. O número consta do prognóstico do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), que identifica nomes competitivos e projeta quantas cadeiras cada partido ou federação poderá conquistar.
O dado mais revelador, contudo, não é apenas o tamanho da fila de deputados que querem permanecer em Brasília. As maiores chapas têm mais nomes competitivos do que vagas projetadas. Um candidato pode ter votação expressiva e ainda depender do desempenho coletivo da legenda. Da mesma forma, a força do partido não garante a eleição de cada nome incluído no levantamento.
A federação PT-PCdoB-PV aparece com seis a sete cadeiras. Na disputa estão os deputados Denise Pessôa, Maria do Rosário, Alexandre Lindenmeyer, Bohn Gass, Marcon e Daiana Santos, todos candidatos à reeleição. O levantamento também inclui Laura Sito, Reginete Bispo e Miriam Marroni. São seis parlamentares tentando renovar o mandato em uma chapa com piso de seis vagas. Isso, porém, não significa que os seis serão eleitos. Eles também disputam espaço com os demais nomes da federação.
No PL, a previsão é de cinco a sete cadeiras. Osmar Terra, Giovani Cherini, Bibo Nunes, Marcelo Moraes e Maurício Marcon tentam se reeleger. Também constam da relação Marcelo Ustra, Jesse Sangalli, Fernanda Barth, Marciano Perondi e Diogo Segabinazzi. A legenda pode preservar espaço na bancada gaúcha e abrir passagem para novos nomes. Quem ocupará as vagas dependerá da votação, não da ordem em que os candidatos aparecem na tabela do DIAP.
A federação PP-União Brasil tem faixa de cinco a seis cadeiras. Covatti Filho, Any Ortiz, Pedro Westphalen, Afonso Hamm e Luiz Carlos Busato buscam novo mandato. Onyx Lorenzoni, Mariana Lescano Moro e Patrícia Tainê Beck também estão entre os nomes listados. A presença de cinco deputados em exercício e de outros concorrentes com trajetória política torna a disputa interna um dos pontos decisivos da chapa.
Somadas, as faixas dessas três chapas vão de 16 a 20 cadeiras. Esse intervalo resulta da soma das projeções individuais de cada grupo, não de uma previsão fechada para o conjunto. Ainda assim, mostra onde o estudo concentra a maior parte das vagas gaúchas. Para os demais partidos e federações, as margens são mais estreitas.
O PSD tem previsão de três a quatro deputados. Lucas Redecker, Heitor Schuch e Danrlei de Deus tentam a reeleição, enquanto Luciano Azevedo e Fábia Richter aparecem entre os concorrentes. No Republicanos, a estimativa é de duas a três cadeiras. Carlos Gomes e Franciane Bayer buscam novo mandato, e Gustavo Grehs e Ronaldo Nogueira integram a relação de nomes competitivos.
O PDT tem duas vagas projetadas, o mesmo número de deputados da sigla que tentam a reeleição, Afonso Motta e Pompeo de Mattos. O MDB aparece com uma a duas cadeiras. Alceu Moreira busca permanecer na Câmara, enquanto Patrícia Bazotti e Fátima Daudt também figuram no levantamento. Na federação PSOL-Rede, com previsão de uma a duas vagas, Fernanda Melchionna tenta novo mandato e Carlos Robaina aparece entre os concorrentes.
Para algumas chapas, o prognóstico admite até mesmo a possibilidade de não eleger ninguém. O Podemos reúne Maurício Dziedricki e Rony Gabriel. No Novo, aparecem Felipe Zortea e Fábio Ostermann. Daniel Trzeciak tenta a reeleição pela federação PSDB-Cidadania. Cada uma dessas chapas tem projeção de zero a uma cadeira. Seus candidatos constam da lista de competitivos do DIAP, mas a conquista da vaga permanece incerta.
O quadro gaúcho acompanha uma tendência nacional. Segundo o DIAP, 438 dos 513 deputados federais tentam a reeleição, e a projeção é de que 297 a 315 consigam permanecer na Câmara. Se a estimativa se confirmar, a renovação ficará entre 39% e 43%, abaixo da média histórica observada desde 1990. Quem já ocupa mandato chega à disputa com vantagens que dificultam, embora não impeçam, a entrada de novas lideranças.
O levantamento não é pesquisa eleitoral nem relação de futuros eleitos. Para elaborar o prognóstico, o DIAP considera pesquisas de intenção de voto, histórico eleitoral, recandidaturas, estrutura de campanha e estratégias partidárias, entre outros fatores. A ressalva importa porque as faixas estimam quantas cadeiras um partido ou federação pode conquistar. Elas não atribuem essas cadeiras antecipadamente aos nomes listados.
A pergunta para outubro, portanto, vai além de quantos deputados gaúchos conseguirão renovar o mandato. Importa saber se as chapas abrirão espaço para novas lideranças ou se a concorrência interna conservará quase intacto o grupo que hoje representa o Estado em Brasília. A eleição permite mudança. O prognóstico mostra o tamanho dos obstáculos que ela terá de superar.
Fonte: DIAP, Prognóstico do Novo Congresso Nacional — Eleições 2026; material complementar As bancadas da nova Câmara.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Quando a fé entra na urna

 

Da mobilização católica na Constituinte de 1933 à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida em 2026, a religião nunca foi um detalhe na história eleitoral brasileira. Ela não explica sozinha o voto, mas ajuda a definir os afetos, os receios e as fronteiras morais da disputa

O Brasil é um Estado laico, mas jamais foi um país eleitoralmente indiferente à religião. A separação constitucional entre Estado e igrejas não eliminou da política as crenças, os valores, os símbolos e as redes de influência que atravessam a vida religiosa brasileira. Ao contrário, em períodos de maior tensão moral ou de campanhas muito polarizadas, a fé costuma sair do plano privado e entrar de vez na arena pública.

Os números ajudam a explicar por quê. Segundo o Censo 2022, 100,22 milhões de brasileiros se declararam católicos, o equivalente a 56,7% da população com 10 anos ou mais. Embora o catolicismo tenha perdido participação relativa nas últimas décadas, ele continua sendo a maior identidade religiosa do país, ao lado de um segmento evangélico numeroso, organizado e cada vez mais relevante na política.

Religião, porém, não é um bloco eleitoral automático. Católicos votam de formas diferentes entre si. O mesmo vale para evangélicos, espíritas, adeptos de religiões de matriz africana e pessoas sem religião. O que a história demonstra é outra coisa. Quando campanhas conseguem transformar fé, valores ou símbolos sagrados em linguagem política, podem deslocar prioridades, ativar medos e alterar a correlação de forças.

Da Liga Católica à Constituinte

Um dos primeiros episódios marcantes ocorreu na eleição de 1933, convocada para formar a Assembleia Nacional Constituinte após a Revolução de 1930. A Igreja Católica, então empenhada em recuperar espaço público depois da separação formal entre Igreja e Estado instituída pela República, organizou a Liga Eleitoral Católica.

A estratégia era objetiva. A Liga recomendava ao eleitorado candidatos comprometidos com uma agenda católica, que incluía o ensino religioso e posições conservadoras em temas de família. A operação teve êxito. A maioria dos candidatos apoiados pela entidade foi eleita, e parte importante de suas reivindicações encontrou espaço na Constituição de 1934.

Não se tratava de uma eleição presidencial decidida por uma polêmica religiosa de última hora. Era algo mais estruturado. Uma instituição religiosa buscava formar maioria legislativa e influenciar o desenho constitucional do país. A lição daquele momento permanece atual. Religião pesa mais quando deixa de ser apenas convicção individual e se transforma em organização, rede e agenda pública.

A ascensão evangélica e o voto moral

Outro ponto de inflexão veio com a redemocratização. Nas eleições de 1986, que escolheram o Congresso Constituinte responsável pela Constituição de 1988, igrejas evangélicas ampliaram sua presença institucional. A chamada bancada evangélica passou de 14 deputados federais eleitos em 1982 para 33 em 1986, acompanhando tanto o crescimento demográfico desse segmento quanto sua maior disposição de disputar o poder político.

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, a religião entrou na disputa sob a forma de temor e desinformação. Setores evangélicos foram mobilizados contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva a partir da ideia de que uma vitória da esquerda poderia ameaçar a liberdade das igrejas ou implantar um projeto ateu e hostil à fé. Pesquisas sobre o período registram a resistência de parte do eleitorado evangélico a Lula e o apoio de lideranças religiosas a Fernando Collor.

A eleição não pode ser resumida a isso. Collor venceu por uma combinação de fatores, como a imagem de renovação, a comunicação de massa, a fragmentação do primeiro turno e a forte exposição televisiva. Mas o caso mostrou a eficácia política de um recurso que continuaria a aparecer nas décadas seguintes. Bastava apresentar a disputa eleitoral como uma escolha entre a preservação da fé e uma suposta ameaça moral.

2010: o aborto no centro da eleição

Nenhuma eleição presidencial brasileira recente tornou a religião tão visível como a de 2010. A disputa entre Dilma Rousseff e José Serra, com Marina Silva como terceira força no primeiro turno, foi atravessada pelo debate sobre aborto, família e valores religiosos.

Dilma, candidata apoiada pelo então presidente Lula e favorita nas pesquisas durante boa parte da campanha, passou a enfrentar uma ofensiva intensa de setores católicos e evangélicos. Discursos, vídeos, panfletos, correntes digitais e manifestações de lideranças religiosas associaram sua candidatura à legalização do aborto e a uma agenda moralmente permissiva.

O resultado foi a transformação de uma pauta que antes ocupava espaço restrito no debate político em um dos centros da campanha. O aborto tornou-se uma peça central da disputa presidencial de 2010, justamente por articular religião, moral e política.

A pressão foi suficiente para obrigar Dilma a reposicionar sua comunicação pública. A candidata divulgou carta aos cristãos, declarou-se contrária à mudança na legislação sobre aborto e buscou neutralizar a desconfiança de eleitores religiosos. José Serra, por sua vez, procurou capturar o espaço aberto pelo debate moral, ainda que também precisasse evitar uma imagem excessivamente sectária.

Dilma terminou o primeiro turno com 46,9% dos votos válidos, contra 32,6% de Serra. Marina Silva obteve 19,3%. O segundo turno, que parecia improvável meses antes, tornou-se necessário.

Seria impreciso, no entanto, atribuir o segundo turno apenas à questão religiosa. Estudos sobre a eleição indicam que a controvérsia do aborto afetou a campanha, especialmente entre segmentos religiosos, mas também apontam o impacto de escândalos políticos, da mudança de cenário no fim da disputa e da própria força eleitoral de Marina. A conclusão mais responsável é que 2010 não foi apenas a eleição do aborto. Foi o momento em que pautas morais de inspiração religiosa se consolidaram como instrumento nacional de campanha presidencial.

Ali se fixou um padrão que se repetiria. Pautas religiosas e morais podem não decidir sozinhas quem vence, mas são capazes de alterar o tom da eleição, impor recuos, obrigar candidaturas a produzir sinais de fé e reorganizar alianças eleitorais.

2018 e 2022: a religião como identidade política

Em 2018, esse padrão ganhou outra dimensão. Jair Bolsonaro construiu uma linguagem política diretamente ligada ao conservadorismo cristão, com referências a Deus, à família, ao combate à chamada ideologia de gênero e à defesa de valores tradicionais. O apoio evangélico foi um dos pilares de sua vitória, embora não explique, isoladamente, o resultado eleitoral.

Em 2022, a religião permaneceu no centro. Bolsonaro conservou ampla preferência entre evangélicos, enquanto Lula obteve melhor desempenho entre católicos e entre pessoas sem religião. A campanha foi marcada por disputas sobre fechamento de igrejas, liberdade religiosa, aborto e costumes, muitas vezes sustentadas por conteúdos falsos ou distorcidos. O próprio fato de Lula ter divulgado uma carta dirigida aos evangélicos revelou o peso político que o segmento havia adquirido.

O dado decisivo é que o voto religioso não funciona como uma sentença. Bolsonaro teve maioria entre evangélicos em 2022, mas Lula venceu a eleição. A religião influencia preferências e estratégias, mas convive com renda, emprego, inflação, rejeição, avaliação de governo, território, raça, gênero e trajetória partidária. Uma campanha que ignore a fé perde parte do país. Uma análise que reduza o país à fé perde quase tudo o mais.

A disputa por Nossa Senhora Aparecida

É nesse contexto que deve ser lida a atual polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Nos últimos dias, circulou nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do país. A Justiça Eleitoral inicialmente determinou a remoção de publicações relacionadas ao fato. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, anulou a decisão e determinou o restabelecimento das publicações, com fundamento na liberdade de expressão e na liberdade religiosa.

O episódio tem importância política. Ele mostra como um símbolo religioso de alcance nacional pode transformar-se em combustível eleitoral quase instantaneamente. A disputa não é apenas sobre uma lei ou uma publicação. É sobre pertencimento, identidade e a possibilidade de se apresentar o adversário como hostil a algo profundamente incorporado à memória afetiva de milhões de brasileiros.

O monitoramento de redes reportado pela Folha de São Paulo mostra que o tema da padroeira deslocou, ao lado das apostas esportivas, a atenção da reta final da campanha. A controvérsia cresceu especialmente no X e ampliou sua circulação depois das decisões judiciais. É o efeito Streisand, um fenômeno conhecido dos ambientes digitais: a tentativa de censurar um conteúdo pode, paradoxalmente, aumentar seu alcance.

Há, ainda, um dado eleitoral relevante. No recorte por religião da pesquisa BTG/Nexus, realizada entre 25 e 27 de setembro, Lula aparece com 50% das intenções de voto entre católicos, contra 26% de Flávio Bolsonaro. Entre evangélicos, a relação se inverte. Flávio tem 50%, e Lula, 31%.

No segundo turno, o contraste permanece. Lula marca 52% entre católicos, diante de 39% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio alcança 57%, e Lula, 35%. A pesquisa registra que os católicos representaram 50% da amostra e os evangélicos, 28%. A Nexus menciona os acontecimentos recentes ao apresentar os dados, mas não é possível atribuir a eles, isoladamente, as oscilações observadas nem afirmar que essas diferenças permanecerão até a eleição. Pesquisa revela tendências e diferenças entre grupos, mas não prova, por si só, causalidade. A controvérsia sobre a padroeira pode mobilizar identidades, ampliar rejeições ou reforçar convicções já existentes. Não é possível afirmar, contudo, que ela definirá a escolha do eleitorado.

A urna não é um altar

A história brasileira recomenda duas conclusões simultâneas. A primeira é que religião importa. Ela organiza comunidades, oferece vocabulário moral, cria lideranças, ativa emoções e pode alterar o curso de uma campanha. Ignorá-la é não compreender uma parte decisiva da sociedade brasileira.

A segunda é que o eleitor não cabe em um púlpito. Católicos não são monolíticos. Evangélicos tampouco. A adesão religiosa não cancela interesses materiais, experiências de vida, preferências ideológicas ou avaliações concretas de governo.

A urna não é um altar. Mas, em momentos decisivos, a política sabe muito bem como entrar nele.


terça-feira, 15 de setembro de 2026

Suprema Corte

Charge do Duke

O país parou:
pela primeira vez,
um juiz da nação
pode ser investigado.

Um banqueiro atravessa a toga,
a República perde o prumo.
Ministros trocam acusações,
e o plenário produz
um mal-estar cívico,
profundo e consternado.

Um juiz chora.
Outro ergue a voz:
“Não levante o dedo para mim.”
Mas já não há gesto pequeno
quando a própria Corte
discute os seus limites.

A única mulher alerta:
não se destrói uma Corte
sem ferir a esperança
de quem ainda espera Justiça.

Cinco ministros,
uma eleição polarizada,
jornalistas sem sono,
o país em vigília.

O Judiciário pede reforma.
A sessão pede silêncio.

E, antes da resposta,
um ministro pede vista.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Guerra Fria Institucional

 
“Os Guerreiros”, de Bruno Giorgi

No Planalto, a fumaça não vem de canhão:
sobe dos autos, das notas, dos celulares,
dos corredores onde a República
aprendeu a falar em off.

A polícia dispara um relatório —
papel que atravessa mármores,
atinge a relatoria,
instala a suspeição
no peito blindado do Supremo.
Não há sangue na toga,
mas há pólvora na assinatura.

Numa sala fechada,
a Constituição perde o silêncio:
vozes de ministros, frases calculadas,
um encontro sem ata para a história,
mas não sem ouvidos.
Vaza a reunião, e cada palavra
vira prova, versão, ameaça,
espelho quebrado da confiança.

Um sai — ou é retirado
pela geometria impiedosa das aparências.
Outro recebe os papéis,
outro surge entre mensagens e suspeitas,
nomes que circulam no fio invisível
entre inquérito e denúncia.
Numa crise, até a negativa
ganha estatuto de manchete.

No Senado, o impeachment é convocado
como tambor de uma guerra sem quartel:
não se derruba apenas um ministro,
testa-se a altura de cada Poder,
mede-se quem vigia, quem reage,
quem pode acusar sem ser acusado.

E o Ministério Público,
chamado a separar fato e interesse,
é puxado ao centro do redemoinho:
quem fiscaliza também precisa explicar
seus passos, seus vínculos, seus silêncios,
quando a política transforma procedimento
em munição.

É ano eleitoral —
e o país inteiro parece uma urna aberta
antes da hora:
cada escândalo pede voto,
cada vazamento escolhe um lado,
cada silêncio é lido como aliança.

Brasil: república de arquivos,
áudios, dossiês e versões;
país em que a notícia chega algemada
ao tribunal da torcida.

Não há tanques na Praça dos Três Poderes.
Há algo mais brasileiro e mais perigoso:
instituições armadas de desconfiança,
combatendo sob a bandeira da legalidade,
enquanto o povo, entre o espanto e o cansaço,
assiste à Guerra Fria Institucional.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A Urna e o Palácio

Na boca do outono, o Rio Grande entra em campanha
e o Piratini finge que virou praça,
quando continua sendo sala de reunião de poucos.

Um perfil aparece como figura de fundo:
serve para ilustrar democracia de catálogo,
não para disputar projeto de poder.

Outro veste figurino importado de guerra cultural:
fala em liberdade com sotaque estrangeiro,
vende tarifaço como solução,
promete Estado enxuto enquanto engorda banco e consulado.

Há o candidato das pesquisas ingratas:
não sobe em número algum, por isso sobe o tom.
Produto de gabinete, descobre de repente
que precisa conversar com lotação, periferia, chão de fábrica.
Vende gestão, entrega continuidade do mesmo condomínio de poder.

E há uma candidatura que traz memória no sobrenome,
herança de comício em praça, de escola como direito,
de salário como compromisso.
Não é mito de museu, é aposta de trabalhismo vivo,
de povo no centro da equação.

No papel, são quatro opções.
Na prática, é teste de coragem histórica:
figurante que legitima o espetáculo,
eco submisso de tarifaço estrangeiro,
gestão ansiosa pra manter a engrenagem,
ou esperança que não pede desculpa por ser popular.

A urna não pergunta nomes,
pergunta se o Rio Grande ainda se lembra
que já foi laboratório de ousadia
e não apenas administrador educado
do próprio declínio.