Em 2025, deputados do RS gastaram mais de R$ 2,7 milhões em diárias nacionais e internacionais, sem relatório público que comprove benefícios ao estado.
Em 2025, os deputados estaduais da
Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul consumiram mais de R$ 2,7 milhões
em diárias nacionais e internacionais, sem que haja transparência mínima sobre
quais políticas públicas efetivas derivaram desses gastos.
Pelo Portal da Transparência, o total
pago aos parlamentares alcança cerca de R$ 2,17 milhões, em 2.118,5 diárias
nacionais. Cada deputado pode receber até 84 diárias por ano, sendo até 10
internacionais, o que indica que parte da bancada operou no teto máximo
previsto pela norma interna da Assembleia Legislativa. As diárias
internacionais somaram aproximadamente R$ 598 mil, em 265 diárias pagas, com
valores que chegam a US$ 300 na América do Sul e € 400 para Europa, África,
Ásia e Oceania, por dia de viagem.
A justificativa oficial é que as diárias cobrem deslocamentos para “missões parlamentares”, reuniões, seminários e agendas institucionais, mas nem o portal da transparência nem os perfis parlamentares informam ao cidadão quais resultados mensuráveis essas viagens produziram para o contribuinte gaúcho. Em um ano marcado por crise fiscal e necessidade de reconstrução pós-enchente, o Legislativo escolheu preservar uma rotina de deslocamentos caros, sem vincular os gastos a metas claras de melhoria em serviços como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura ou proteção social.
Com base no portal da transparência, o
ranking dos 10 parlamentares que mais receberam diárias, somando diárias
nacionais e internacionais, é o seguinte:
|
|
Deputado |
Diárias nacionais |
Diárias internac. |
Valor total aproximado* |
|
1 |
Pedro Pereira
(PSD) |
84,0 |
7,0 |
R$ 96,8 mil |
|
2 |
Silvana
Covatti (PP) |
58,0 |
10,0 |
R$ 92,2 mil |
|
3 |
Rodrigo
Lorenzoni (PP) |
52,0 |
10,0 |
R$ 86,8 mil |
|
4 |
Sergio Peres (Republicanos) |
60,0 |
8,0 |
R$ 70,1 mil |
|
5 |
Gerson Burmann
(PDT) |
61,0 |
0 |
R$ 49,3 mil
(só nacionais) |
|
6 |
Guilherme
Pasin (PP) |
42,0 |
10,0 |
R$ 74,4 mil |
|
7 |
Elton Weber (PSD) |
64,5 |
0 |
R$ 53,6 mil
(só nacionais) |
|
8 |
Elizandro
Sabino (Republicanos) |
55,5 |
10,0 |
R$ 82,6 mil |
|
9 |
Marcus
Vinícius (PP) |
44,0 |
7,0 |
R$ 63,9 mil |
|
10 |
Luciano
Silveira (MDB) |
45,0 |
0 |
R$ 39,2 mil
(só nacionais) |
O dado mais eloquente é que nenhum
desses parlamentares recolheu diárias, todas foram integralmente usadas, o que
reforça a sensação de que o mecanismo se transformou em complemento automático
de remuneração, e não em recurso excepcional para situações em que a presença
física do deputado é indispensável.
Quando se
confronta esse mapa de gastos com os perfis oficiais da 56ª Legislatura, o
contraste é evidente. Deputados que se apresentam como defensores da
“responsabilidade fiscal”, do “respeito ao dinheiro público” ou da “redução do
tamanho do Estado” aparecem entre os campeões de diárias, desfrutando de uma
prerrogativa pouco controlada justamente em áreas como viagens internacionais e
agendas em outros estados.
Há também casos
em que o discurso é de “mandato municipalista”, centrado em infraestrutura,
saúde ou agricultura familiar, mas a rotina de deslocamentos pagos pela
Assembleia se concentra em viagens que não têm resultados claramente associados
a um hospital construído, uma rodovia entregue ou uma política social
implementada no RS.
O desenho atual
da política de diárias é permissivo: autoriza até 84 diárias por ano para cada
deputado, com 10 internacionais e regra que admite até cinco viagens para
países do Mercosul, desde que aprovadas pela Comissão e pela Mesa. Mas não
exige que o parlamentar publique relatório detalhado da missão, nem que
demonstre o impacto da viagem sobre a formulação de leis, o controle de gastos
do Executivo ou a melhoria de serviços públicos.
Sem essa
contrapartida, as diárias se convertem em benefício corporativo típico de uma
elite política blindada, distante da realidade de servidores e cidadãos que
arcam com cortes, congelamentos salariais e precarização de políticas de base.
Em termos de accountability, a Assembleia continua tratando deslocamentos como
assunto interno, quando deveriam ser vistos como investimentos públicos cuja
legitimidade depende de comprovação de retorno.
A consequência é que o contribuinte gaúcho paga por um Parlamento que viaja muito, gasta alto com diárias e, ao mesmo tempo, não oferece evidências de que essas viagens reduzem filas de hospitais, melhoram a qualidade das escolas ou aceleram obras de infraestrutura essenciais. A pergunta que fica é simples: até quando o Rio Grande do Sul aceitará financiar diárias de luxo sem exigir que cada passagem emitida se traduza em política pública real?




