Da mobilização católica na
Constituinte de 1933 à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida em 2026, a
religião nunca foi um detalhe na história eleitoral brasileira. Ela não explica
sozinha o voto, mas ajuda a definir os afetos, os receios e as fronteiras
morais da disputa
O Brasil é um Estado laico, mas jamais foi um
país eleitoralmente indiferente à religião. A separação constitucional entre
Estado e igrejas não eliminou da política as crenças, os valores, os símbolos e
as redes de influência que atravessam a vida religiosa brasileira. Ao
contrário, em períodos de maior tensão moral ou de campanhas muito polarizadas,
a fé costuma sair do plano privado e entrar de vez na arena pública.
Os
números ajudam a explicar por quê. Segundo o Censo 2022, 100,22 milhões de
brasileiros se declararam católicos, o equivalente a 56,7% da população com 10
anos ou mais. Embora o catolicismo tenha perdido participação relativa nas
últimas décadas, ele continua sendo a maior identidade religiosa do país, ao
lado de um segmento evangélico numeroso, organizado e cada vez mais relevante
na política.
Religião,
porém, não é um bloco eleitoral automático. Católicos votam de formas
diferentes entre si. O mesmo vale para evangélicos, espíritas, adeptos de
religiões de matriz africana e pessoas sem religião. O que a história demonstra
é outra coisa. Quando campanhas conseguem transformar fé, valores ou símbolos
sagrados em linguagem política, podem deslocar prioridades, ativar medos e
alterar a correlação de forças.
Da
Liga Católica à Constituinte
Um dos
primeiros episódios marcantes ocorreu na eleição de 1933, convocada para formar
a Assembleia Nacional Constituinte após a Revolução de 1930. A Igreja Católica,
então empenhada em recuperar espaço público depois da separação formal entre
Igreja e Estado instituída pela República, organizou a Liga Eleitoral Católica.
A
estratégia era objetiva. A Liga recomendava ao eleitorado candidatos
comprometidos com uma agenda católica, que incluía o ensino religioso e
posições conservadoras em temas de família. A operação teve êxito. A maioria
dos candidatos apoiados pela entidade foi eleita, e parte importante de suas
reivindicações encontrou espaço na Constituição de 1934.
Não se
tratava de uma eleição presidencial decidida por uma polêmica religiosa de
última hora. Era algo mais estruturado. Uma instituição religiosa buscava
formar maioria legislativa e influenciar o desenho constitucional do país. A
lição daquele momento permanece atual. Religião pesa mais quando deixa de ser
apenas convicção individual e se transforma em organização, rede e agenda
pública.
A
ascensão evangélica e o voto moral
Outro
ponto de inflexão veio com a redemocratização. Nas eleições de 1986, que
escolheram o Congresso Constituinte responsável pela Constituição de 1988,
igrejas evangélicas ampliaram sua presença institucional. A chamada bancada
evangélica passou de 14 deputados federais eleitos em 1982 para 33 em 1986,
acompanhando tanto o crescimento demográfico desse segmento quanto sua maior
disposição de disputar o poder político.
Em
1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, a religião
entrou na disputa sob a forma de temor e desinformação. Setores evangélicos
foram mobilizados contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva a partir da
ideia de que uma vitória da esquerda poderia ameaçar a liberdade das igrejas ou
implantar um projeto ateu e hostil à fé. Pesquisas sobre o período registram a
resistência de parte do eleitorado evangélico a Lula e o apoio de lideranças
religiosas a Fernando Collor.
A
eleição não pode ser resumida a isso. Collor venceu por uma combinação de
fatores, como a imagem de renovação, a comunicação de massa, a fragmentação do
primeiro turno e a forte exposição televisiva. Mas o caso mostrou a eficácia
política de um recurso que continuaria a aparecer nas décadas seguintes.
Bastava apresentar a disputa eleitoral como uma escolha entre a preservação da
fé e uma suposta ameaça moral.
2010:
o aborto no centro da eleição
Nenhuma
eleição presidencial brasileira recente tornou a religião tão visível como a de
2010. A disputa entre Dilma Rousseff e José Serra, com Marina Silva como
terceira força no primeiro turno, foi atravessada pelo debate sobre aborto,
família e valores religiosos.
Dilma,
candidata apoiada pelo então presidente Lula e favorita nas pesquisas durante
boa parte da campanha, passou a enfrentar uma ofensiva intensa de setores
católicos e evangélicos. Discursos, vídeos, panfletos, correntes digitais e
manifestações de lideranças religiosas associaram sua candidatura à legalização
do aborto e a uma agenda moralmente permissiva.
O
resultado foi a transformação de uma pauta que antes ocupava espaço restrito no
debate político em um dos centros da campanha. O aborto tornou-se uma peça
central da disputa presidencial de 2010, justamente por articular religião,
moral e política.
A
pressão foi suficiente para obrigar Dilma a reposicionar sua comunicação
pública. A candidata divulgou carta aos cristãos, declarou-se contrária à
mudança na legislação sobre aborto e buscou neutralizar a desconfiança de
eleitores religiosos. José Serra, por sua vez, procurou capturar o espaço
aberto pelo debate moral, ainda que também precisasse evitar uma imagem
excessivamente sectária.
Dilma
terminou o primeiro turno com 46,9% dos votos válidos, contra 32,6% de Serra.
Marina Silva obteve 19,3%. O segundo turno, que parecia improvável meses antes,
tornou-se necessário.
Seria
impreciso, no entanto, atribuir o segundo turno apenas à questão religiosa.
Estudos sobre a eleição indicam que a controvérsia do aborto afetou a campanha,
especialmente entre segmentos religiosos, mas também apontam o impacto de
escândalos políticos, da mudança de cenário no fim da disputa e da própria
força eleitoral de Marina. A conclusão mais responsável é que 2010 não foi
apenas a eleição do aborto. Foi o momento em que pautas morais de inspiração
religiosa se consolidaram como instrumento nacional de campanha presidencial.
Ali se
fixou um padrão que se repetiria. Pautas religiosas e morais podem não decidir
sozinhas quem vence, mas são capazes de alterar o tom da eleição, impor recuos,
obrigar candidaturas a produzir sinais de fé e reorganizar alianças eleitorais.
2018
e 2022: a religião como identidade política
Em
2018, esse padrão ganhou outra dimensão. Jair Bolsonaro construiu uma linguagem
política diretamente ligada ao conservadorismo cristão, com referências a Deus,
à família, ao combate à chamada ideologia de gênero e à defesa de valores
tradicionais. O apoio evangélico foi um dos pilares de sua vitória, embora não
explique, isoladamente, o resultado eleitoral.
Em
2022, a religião permaneceu no centro. Bolsonaro conservou ampla preferência
entre evangélicos, enquanto Lula obteve melhor desempenho entre católicos e
entre pessoas sem religião. A campanha foi marcada por disputas sobre
fechamento de igrejas, liberdade religiosa, aborto e costumes, muitas vezes
sustentadas por conteúdos falsos ou distorcidos. O próprio fato de Lula ter
divulgado uma carta dirigida aos evangélicos revelou o peso político que o
segmento havia adquirido.
O dado
decisivo é que o voto religioso não funciona como uma sentença. Bolsonaro teve
maioria entre evangélicos em 2022, mas Lula venceu a eleição. A religião
influencia preferências e estratégias, mas convive com renda, emprego,
inflação, rejeição, avaliação de governo, território, raça, gênero e trajetória
partidária. Uma campanha que ignore a fé perde parte do país. Uma análise que
reduza o país à fé perde quase tudo o mais.
A
disputa por Nossa Senhora Aparecida
É nesse
contexto que deve ser lida a atual polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida,
padroeira do Brasil. Nos últimos dias, circulou nas redes a afirmação de que
Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do país. A
Justiça Eleitoral inicialmente determinou a remoção de publicações relacionadas ao fato. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, anulou
a decisão e determinou o restabelecimento das publicações, com fundamento na
liberdade de expressão e na liberdade religiosa.
O
episódio tem importância política. Ele mostra como um símbolo religioso de
alcance nacional pode transformar-se em combustível eleitoral quase
instantaneamente. A disputa não é apenas sobre uma lei ou uma publicação. É
sobre pertencimento, identidade e a possibilidade de se apresentar o adversário
como hostil a algo profundamente incorporado à memória afetiva de milhões de
brasileiros.
O
monitoramento de redes reportado pela Folha de São Paulo mostra que o tema da
padroeira deslocou, ao lado das apostas esportivas, a atenção da reta final da
campanha. A controvérsia cresceu especialmente no X e ampliou sua circulação
depois das decisões judiciais. É o efeito Streisand, um fenômeno conhecido dos
ambientes digitais: a tentativa de censurar um conteúdo pode, paradoxalmente,
aumentar seu alcance.
Há,
ainda, um dado eleitoral relevante. No recorte por religião da pesquisa
BTG/Nexus, realizada entre 25 e 27 de setembro, Lula aparece com 50% das
intenções de voto entre católicos, contra 26% de Flávio Bolsonaro. Entre
evangélicos, a relação se inverte. Flávio tem 50%, e Lula, 31%.
No
segundo turno, o contraste permanece. Lula marca 52% entre católicos, diante de
39% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio alcança 57%, e Lula, 35%. A pesquisa
registra que os católicos representaram 50% da amostra e os evangélicos, 28%. A
Nexus menciona os acontecimentos recentes ao apresentar os dados, mas não é
possível atribuir a eles, isoladamente, as oscilações observadas nem afirmar
que essas diferenças permanecerão até a eleição. Pesquisa revela tendências e
diferenças entre grupos, mas não prova, por si só, causalidade. A controvérsia
sobre a padroeira pode mobilizar identidades, ampliar rejeições ou reforçar
convicções já existentes. Não é possível afirmar, contudo, que ela definirá a
escolha do eleitorado.
A
urna não é um altar
A
história brasileira recomenda duas conclusões simultâneas. A primeira é que
religião importa. Ela organiza comunidades, oferece vocabulário moral, cria
lideranças, ativa emoções e pode alterar o curso de uma campanha. Ignorá-la é
não compreender uma parte decisiva da sociedade brasileira.
A
segunda é que o eleitor não cabe em um púlpito. Católicos não são monolíticos.
Evangélicos tampouco. A adesão religiosa não cancela interesses materiais,
experiências de vida, preferências ideológicas ou avaliações concretas de
governo.
A urna não é um altar. Mas, em momentos decisivos, a política sabe muito bem como entrar nele.



.png)

