O debate sobre cheias no Estado precisa sair da comoção e entrar no terreno das decisões duras
As enchentes recentes no Rio Grande do
Sul voltaram a expor uma questão que o poder público brasileiro costuma deixar
para depois. Como montar uma política séria de prevenção à inundação? O
problema não é só técnico. Envolve instituições, orçamento, disputa eleitoral e
capacidade estatal de antecipar risco antes que a água suba.
O debate público precisa abandonar a
ilusão de que existe uma solução mágica. O que países que convivem há décadas
com esse tipo de ameaça fizeram foi reunir respostas diferentes, de acordo com
seu território, seus riscos e sua capacidade de gestão. É essa combinação que
pode enriquecer a resposta gaúcha. O RS não precisa escolher entre engenharia
pesada, drenagem urbana inteligente e soluções baseadas na natureza. Precisa
articular essas frentes dentro de uma política contínua, com comando claro,
financiamento estável e cobrança social permanente.
A experiência da Holanda é emblemática. Lá,
a proteção contra a água não aparece como obra extraordinária, mas como rotina
de Estado. Diques, comportas, bombas, canais, monitoramento e manutenção
compõem um sistema que exige vigilância diária. A lição holandesa é simples.
Não basta erguer barreiras. É preciso administrar o território com a
consciência de que a água sempre buscará seu espaço. Em um estado como o RS,
especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, essa mentalidade é
decisiva. Obras isoladas pouco resolvem sem planejamento permanente e
manutenção rigorosa.
O Japão oferece outra referência. Em vez
de confiar apenas em canais superficiais, o país desenvolveu sistemas
subterrâneos de desvio e reservação capazes de absorver volumes enormes de água
em eventos extremos. Trata-se de engenharia de alta complexidade, pensada para
metrópoles densas, impermeabilizadas e expostas a chuvas intensas. Essa lógica
pode inspirar o RS nas áreas urbanas mais vulneráveis, onde a simples
canalização já não acompanha a força dos eventos climáticos. Túneis de
contenção, reservatórios de detenção e estruturas de amortecimento podem ser
fundamentais, desde que venham acompanhados de boa gestão e manutenção.
Já o conceito de cidade-esponja amplia o
debate para além da obra dura. Ele propõe que a própria cidade absorva parte da
água da chuva por meio de pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados
verdes, praças alagáveis e áreas de retenção. Em vez de escoar a água depressa,
como faz o urbanismo tradicional, a cidade-esponja procura segurar, infiltrar e
reutilizar. O modelo é especialmente relevante porque enfrenta um problema
estrutural do RS, a impermeabilização crescente do solo, resultado de décadas
de ocupação desordenada e política urbana equivocada.
No Vale do Taquari, o eixo principal
precisa ser o alerta precoce, o monitoramento hidrológico e a evacuação rápida.
Há territórios em que não faz sentido imaginar que todas as cheias serão
contidas por grandes obras. Nesses casos, a prioridade deve ser salvar vidas,
reduzir danos e reorganizar a ocupação do solo. Sirenes, sensores, boletins em
tempo real, rotas de fuga e protocolos claros de emergência são tão importantes
quanto obras de contenção. Quando a cheia avança rápido, o que separa proteção
de tragédia é a antecipação.
É nesse ponto que a discussão deixa de
ser apenas técnica e entra no campo político. A prevenção de enchentes depende
de decisão pública, e decisão pública depende de disputa eleitoral, prioridade
orçamentária e pressão social. Governos gostam de inaugurar obras, mas tendem a
negligenciar aquilo que não rende foto. Manutenção, mapeamento de risco,
fiscalização do uso do solo e modernização da defesa civil costumam ficar em
segundo plano. Pesquisadores, universidades, órgãos de controle, movimentos
sociais, jornalistas e entidades da sociedade civil precisam ocupar esse espaço
de cobrança antes da próxima tragédia, e não apenas depois dela.
As eleições deveriam servir justamente
para isso. Cobrar compromissos concretos. Prefeitos, governadores e
parlamentares precisam dizer qual modelo de drenagem pretendem adotar, quais
áreas serão protegidas com obras estruturais, onde entram soluções baseadas na
natureza, quais comunidades precisam ser reassentadas, quem fará a manutenção e
quem fiscalizará as metas. Sem resposta objetiva, o discurso vira administração
da memória do desastre.
O RS tem diante de si a chance de
transformar uma dor histórica em virada institucional. Mas isso exige
maturidade pública. Exige abandonar a lógica do improviso, da reação tardia e
da promessa eleitoreira. Exige aprender com a Holanda a importância da governança
hídrica contínua, com o Japão a força da engenharia subterrânea e com a
cidade-esponja a necessidade de redesenhar o espaço urbano para conviver com a
água, e não apenas combatê-la.
A enchente não é só o momento em que o
rio transborda. É também o momento em que o Estado revela seus limites. E
talvez seja exatamente por isso que a resposta precise ser maior do que a
tragédia: mais técnica, mais política, mais institucional e mais honesta com o
futuro, porque a conta final, em bilhões de reais, quem paga é o contribuinte, e quando a omissão se agrava, paga também com a própria vida.
Medidas para o RS
- Reforçar
e elevar diques, comportas e casas de bombas em Porto Alegre e no entorno
do Guaíba, com revisão de pontos de falha e redundância elétrica e
mecânica.
- Ampliar
o sistema de alerta hidrológico no Vale do Taquari, com mais estações,
modelagem em tempo real e sirenes em áreas urbanas e rurais de evacuação
difícil.
- Implantar
zonas de retenção, parques de inundação e pavimentos permeáveis em áreas
urbanas, seguindo o conceito de cidade-esponja, para reduzir picos de
escoamento superficial.
- Fazer o
mapeamento fino de risco, com reassentamento progressivo de famílias em
cota crítica e proibição de nova ocupação nas faixas de inundação
recorrente.
- Criar
um plano operacional unificado entre Defesa Civil, prefeituras, Estado e
concessionárias, com protocolos automáticos de resposta, evacuação e
restabelecimento.

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