sexta-feira, 22 de maio de 2026

Arrombou o País III

 

O resultado das eleições” (O Malho, n. 24, 1903, p. 6)

Ai, ai, meu povo, o que foi que aconteceu
Com a tal República Federativa do jangadeiro?
Todo mundo fala sério em discurso de roteiro,
Mas esse sério já nasceu com filtro e com letreiro.

Tem juiz de toga pop, influencer de estação,
Dando aula no Instagram sobre ética e corrupção,
Assina sentença, posa, entrega opinião em HD,
Mas o prazo do processo segue sem data pra acontecer.

No Congresso tem de tudo — é vitrine e é bazar,
Coach de patriotismo, fiscal pronto pra performar,
Cada emenda vira lance num leilão sem pudor,
“Deus, família e Pix” como dogma salvador.

O Centrão, velho ofício, nunca perde a direção,
Chega cedo em qualquer governo, já com chave e caminhão,
Troca cargo, troca voto, ajusta lado conforme o pé,
Só não troca o velho vício de sentar no próprio café.

Tem patriota de camisa verde-amarelo neon,
Que no susto pede ordem, mas foge do contracheque e do tom,
Grita “intervenção!” com fervor de ocasião,
Mas na fila do imposto dissolve a convicção.

E quando a realidade aperta mais do que devia,
Tem gente tomando Ypê como cura e profecia,
Rezando pra ET salvar a pátria em operação,
Porque a Terra já cansou da própria administração.

A esquerda escreve threads com rigor internacional,
Explica o mundo inteiro do balcão do bar virtual,
Cita Marx, Butler, Lenin, compõe tese e vitrine,
Mas quando vira política, a conexão sempre declina.

O mercado é o primo sério, de planilha e de moral,
Se o juro oscila um ponto, entra em crise estrutural,
Se a fome cresce, chama isso de ajuste natural,
Desde que o lucro siga firme, crescente e triunfal.

Tem vazamento em série, justiça de ocasião,
Áudio, dado e planilha viram espetáculo na mão,
Depois vem nota técnica, culpa de interpretação,
Mas o estrago já circula no zap da população.

Governador faz live, prefeito corta inauguração,
Obra pela metade, mas completa na transmissão,
Enquanto o ônibus lota e falta ficha no hospital,
O povo paga em dobro por um serviço informal.

Na Suprema Corte, votos viram monumento em PDF,
Latim, pop e doutrina em desfile STF,
Cada qual com sua tese, seu estilo e seu tour,
E o jurisdicionado esperando algum “por favor”.

Os militares observam, com silêncio estratégico,
“Não estamos no jogo”, mas mantêm tom pedagógico,
Sempre deixam o recado, meio vago, meio urgente:
“Se o sistema falhar, convoquem a gente.”

Empresário solidário faz campanha emocional,
Distribui cesta básica com branding institucional,
No balanço do ano, tudo entra como dedução,
Caridade com contrato, incentivo e projeção.

Influencer da política vende curso de insurreição,
“Em sete módulos você muda toda a nação”,
Tem certificado, bônus, pix e validação,
Rebeldia com cashback e prazo de expiração.

Ai, ai, meu povo, o que foi que aconteceu
Com essa política em modo espetáculo de cabaré?
Entre o delírio e o decreto, a fé virou solução,
E o absurdo já disputa eleição.

E no meio do ruído, segue o mesmo freguês:
Acorda cedo, pega fila, trabalha o mês inteiro outra vez,
Vota, reza — pra Deus, pra ET ou pra qualquer salvação —
E ri pra não chorar da própria condição.

domingo, 17 de maio de 2026

República em Cartaz

 

O Atlas da República, em O Malho, 1904.

Hey, hey
é ano eleitoral no Brasil
e o cofre já nem range —
arrombou de vez,
com senha, assinatura e sorriso de TV.

Vem chegando o caixa 2
com perfume de legalidade,
alma quente,
e um jeitinho que cruza tribunais
como quem atravessa a rua.

Mas o golpe — ah, o golpe —
vem mesmo é a galope,
não precisa mais de quartel:
usa gravata, gabinete e algoritmo,
e chama isso de vontade popular.

Do gabinete à praça, o espetáculo migra:
político aparece cantando samba,
desafinando promessas na praça,
a vila vira palanque,
ponto de encontro do esquecimento,
onde todo mundo lembra só do amanhã
que nunca chega.

Promessas voam a jato,
classe executiva da mentira,
e o negro vira cartaz outra vez:
sorriso alugado,
estatística conveniente,
corpo presente na foto
e ausente na partilha —
peça de campanha
no mercado das versões.

Todos perderam a vergonha —
foi leiloada com o discurso,
em lote único,
arrematada por quem já sabia o resultado.

Ninguém parece temer a justiça eleitoral,
senhora de passos lentos
e olhos vendados com papel timbrado.
Só quando cai um ou outro
— bode expiatório de ocasião —
cassado, condenado,
como se o sistema pedisse desculpa
sem dizer a quem.

A lógica é a mesma,
repetida como jingle:
muda o rosto, não muda o roteiro.

Por todos os lados brotam
políticos de ocasião,
como praga em solo fértil,
cultivados à verba,
regados a silêncio.

Logo ali, entre escândalos,
ajudam a fundar de novo a República —
essa eterna inauguração do nada,
um país que se reinventa
sem nunca se refazer.

Hey, hey,
bate palma, Brasil:
o espetáculo continua,
e o ingresso
já foi pago em impostos.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Roteiro Vazado

 

O Brasil foi abalado por um novo escândalo de corrupção
Aroeira, publicado em A Tarde, em 29/11/2015

A república sacudiu
sem nenhum rigor literário
até a Academia de Letras
perdeu a vírgula — e o álibi.
Virou comédia.
Virou filme ruim bancado com dinheiro bom
Coisa de cinema, amor —
é Hollywood?
Não.
Mas tem roteiro vazado,
ator reincidente
e produtor investigado.
O herdeiro pede grana
como quem não precisa explicar.
E o banqueiro?
ri em juros compostos,
capitalizando o escândalo,
porque no Brasil
escândalo também rende.
e ninguém fecha a conta —
só muda o contador.
Tentaram censurar a imprensa —
com jeitinho —
mas saiu até no NY,
com legenda e vexame em dólar.
A elite aplaude em off,
ajeita o terno,
troca o discurso
e vira “instabilidade institucional” na mídia.
Instável é a paciência.
Porque aqui
corrupção não é crise —
é modelo de negócio com tradição familiar.
E o filme segue:
sem bilheteria,
sem crítica boa,
mas com financiamento garantido.
No final, ninguém entende o enredo,
mas todo mundo sabe
quem pagou a conta.
E como sempre,
o país estreia de novo —
e ninguém aprende o roteiro.

terça-feira, 12 de maio de 2026

O Presidente

 

No alto do Planalto,
onde as cúpulas pensam que são eternas,
o vidro treme.

A praça,
que aprendera a ser triângulo de poderes,
acorda estilhaçada:
bandeiras viram trapos,
vidraças sangram em silêncio,
marteletes discursam em nome do povo.

Mas o Presidente
não está ali.
Está longe, no barro de Araraquara,
onde a enxurrada escreve decretos na lama
e as casas desabam
sem pedir autorização.

Ele pisa poças,
ouve nomes que nunca entrarão em ata,
vê brinquedos boiando
como pequenas constituições afogadas.
Enquanto isso, em Brasília,
a vontade torpe veste verde,
se enrola na própria farda imaginária
e avança.

No palácio, a notícia chega
como sirene dentro do peito.
A Primeira-Dama,
entre uma sala e outra,
ouve a senha sussurrada
que vem de outro século: GLO.
Ela recusa com o grito inteiro do corpo:
“GLO não, é golpe!”,
como quem fecha, num só fôlego,
todas as portas da história.

Um ministro abre pastas invisíveis,
tira delas o cardápio constitucional
como quem oferece água no incêndio:
intervenção federal,
palavra que desce arranhando a garganta
mas ainda é lei,
não baioneta.

Então o céu se povoa.
Helicópteros começam a brotar
do horizonte de concreto,
cortando o ar como vírgulas
num parágrafo em estado de sítio.
Viaturas correm,
a Polícia Federal acende faróis
no asfalto perplexo,
snipers aparecem em telhados discretos,
silhuetas que escrevem, com miras vermelhas,
um perímetro em torno do corpo do Presidente.

É a cidade que arma, em segundos,
uma muralha de hélices e canos frios
para que um só corpo respire,
enquanto a praça, lá embaixo,
respira gás, pedra, lacre rompido.
Há uma coreografia urgente
entre o céu e o chão,
entre o homem que veio ver enchentes
e a enchente de ódio
que tenta arrastar o país.

Mais tarde se descobre
que o roteiro era maior que a praça:
não bastava quebrar vidro,
era preciso quebrar a espinha da República.
Na sombra dos gabinetes,
se desenha o silêncio forçado da Justiça,
a mordaça no tribunal
que gostavam de chamar de ativista.
Estava escrito, em tinta clandestina,
que o Presidente não voltaria,
que um ministro da suprema corte
seria calado para sempre,
que o vice desceria, sem escolta,
às notas de rodapé da barbárie.

O plano queria corpos
onde a política ainda insistia em palavras.
Queria transformar o centro do poder
num necrotério constitucional,
para então chamar isso de ordem,
de limpeza,
de começo.

Mas o Presidente estava em Araraquara,
no meio de ruas abertas em barro,
ouvindo histórias que nenhum general escuta.
O destino, ou o acaso,
ou o cálculo de quem cuida de agenda,
puxou o país alguns centímetros
para longe do abismo.

Os helicópteros,
as viaturas,
os snipers,
não foram metáfora:
foram o esqueleto armado da sobrevivência.
Ao redor de um corpo vivo
ergueu-se, às pressas,
um escudo de hélice e mira,
como se a República precisasse, de repente,
aprender a respirar por aparelhos.

Enquanto isso,
em algum gabinete ainda inteiro,
alguém rabisca uma versão oficial,
tenta reduzir o dia
a vandalismo de praça,
a excesso de paixão.
Esquece — por conveniência,
por medo,
por cumplicidade —
que no roteiro original
não era só vidro que deveria quebrar,
mas a própria ideia de futuro.

E um assessor, anos depois,
num bar qualquer de Florianópolis,
conta baixo que viu helicópteros,
viaturas, snipers,
que soube dos nomes na lista,
dos alvos marcados antes do tiro.
A história, ali, serve mais uma rodada
de detalhes que não cabem no telejornal.

Mas quem ouviu aquele relato
sabe que, por um triz,
o país quase coube
num caixão.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Alcance da Lei

    A lei pode alcançá-lo - O Anão e o Ladrão
  Thomas Nast, Harper´s Weekly, 6 de janeiro de 1872

No alto da cidade,
onde os prédios pensam que são eternos,
um homem pequeno rouba pão.

Outro,
de cartola invisível e gravata herdada,
desvia rios.

A lei passa,
de toga, pesada,
olhando primeiro para o chão.

Ali, encontra o anão:
tão visível,
tão alcançável,
tão culpado.

Ergue-se firme,
cumpre seu dever com rigor geométrico,
e o prende.

Depois olha para cima.

O gigante
não cabe no código,
não cabe na cela,
não cabe no gesto.

É grande demais
ou íntimo demais
ou necessário demais
à engrenagem que sustenta a própria lei.

A lei hesita —
coisa rara.

Consulta papéis,
artigos,
precedentes,
silêncios.

O gigante sorri,
não por coragem,
mas por costume.

E a cidade segue:
o pão é crime,
o rio é negócio.

E alguém anota,
em letra miúda,
que a justiça foi feita.

domingo, 10 de maio de 2026

No meio do Judiciário

CORRUPÇÃO, 1872. Judiciário corrupto no tribunal. Justiça: Agora, todos juntos! Charge de Thomas Nast sobre corrupção política nos tribunais.

No meio do Judiciário tinha corrupção
tinha corrupção no meio do Judiciário
tinha corrupção
no meio do Judiciário tinha corrupção

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de instituições tão cansadas
Nunca me esquecerei que, com todas as garantias processuais
no meio do Judiciário tinha corrupção

Tinha corrupção dentro da normalidade institucional
tinha corrupção com ampla defesa e contraditório
tinha corrupção em autos que ninguém leu
no meio do Judiciário tinha corrupção

terça-feira, 28 de abril de 2026

Judiciário brasileiro sob pressão internacional


Foto: Gusto Moreno/SCO/STF

Imprensa internacional expõe supersalários, privilégios e isolamento institucional, reacendendo o debate sobre um dos Poderes mais resistentes a mudanças no mundo.

O Poder Judiciário brasileiro entrou de vez no radar da imprensa internacional, e não por boas razões. Nos últimos meses, uma série de reportagens no exterior, especialmente na Europa, passou a tratar o sistema de Justiça do país como uma anomalia internacional, marcada por supersalários, privilégios e baixa capacidade de responder às demandas sociais. O tema, que há anos circula no debate político interno, ganha agora dimensão global e reforça a percepção de uma crise de legitimidade inevitável.

O jornal espanhol El País classificou o Brasil como o campeão mundial dos supersalários, destacando que cerca de 80 % dos juízes recebem acima do teto constitucional. Em alguns casos, os rendimentos chegam a ser até seis vezes superiores aos pagos a magistrados em Portugal e quatro vezes maiores do que os salários de juízes em cortes constitucionais de países como Alemanha, França, Argentina e Estados Unidos. A discrepância evidencia que o modelo brasileiro é disfuncional e pouco alinhado a padrões internacionais.

A crítica não se limita à remuneração. A Deutsche Welle descreveu magistrados e membros do Ministério Público como integrantes de uma casta privilegiada, comparável a uma corte colonial, sustentada por privilégios, auxílios e submetida a uma estrutura de controle ineficiente. A reportagem associa esse arranjo institucional à baixa confiança da população e ao desempenho insatisfatório do Brasil em rankings internacionais, como o Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional.

Na mesma linha, o jornal suíço Neue Zürcher Zeitung apontou a existência de uma elite intocável na burocracia jurídica do Estado, com forte capacidade de influenciar decisões políticas, mas com baixa exposição a mecanismos efetivos de responsabilização. Já o Handelsblatt destacou a contradição entre a inspiração alemã do modelo brasileiro e sua prática, marcada por altos salários, acúmulo de benefícios e proximidade com interesses privados.

Esse conjunto de críticas internacionais dialoga com a própria história do Estado brasileiro. Desde o período colonial, o país estruturou suas instituições sob fortes traços de patrimonialismo, concentração de renda e reprodução de elites. Nesse contexto, o Judiciário não se apresenta como uma exceção, mas como um dos espaços mais representativos da lógica que estrutura a desigualdade histórica do processo de formação da sociedade brasileira.

Ao contrário de outros poderes, mais expostos à sabatina da opinião pública, o Judiciário brasileiro construiu ao longo do tempo uma posição de ampla autonomia, mas sem contrapesos reais. Essa característica, embora fundamental para a independência institucional e a defesa da democracia, também contribuiu para torná-lo um dos Poderes mais resistentes a reformas. O resultado é um sistema que, apesar de central na garantia de direitos, enfrenta enormes dificuldades em promover justiça social em um país marcado por profundas desigualdades e injustiças.

Portanto, o debate sobre a reforma do Judiciário não deve ficar restrito aos manuais das associações privadas, cuja pauta corporativa pode até ser legítima, mas precisa ocupar o centro da discussão acerca do funcionamento da democracia brasileira e de suas instituições. A pressão internacional amplia o custo político da inércia e reforça a necessidade de enfrentar o corporativismo predatório e temas sensíveis, como o cumprimento efetivo do teto constitucional, maior transparência, participação popular e a instituição de mecanismos efetivos de controle e responsabilização.

Mais do que ajustar distorções salariais, a questão central é redefinir o papel do Judiciário em uma sociedade marcada por desigualdades estruturais. Sem isso, a tendência é que o sistema de Justiça continue operando como um espaço de reprodução de privilégios, elites e distante da realidade da maioria da população brasileira.