Pesquisa da
Fundação Perseu Abramo já apontava a ascensão de um liberalismo popular entre
antigos eleitores da esquerda nas periferias urbanas de São Paulo.
Pesquisa realizada há dez anos sobre valores políticos nas periferias de São Paulo já revelava um paradoxo que a esquerda brasileira
resiste em encarar. Boa parte de seus antigos eleitores passou a falar a
linguagem da meritocracia, da desconfiança do Estado e da
centralidade da família e da religião, sem, no entanto, se tornar neoliberal ou conservadora no sentido clássico.
O fim da gramática da esquerda
O primeiro choque é perceber que a gramática histórica da esquerda, baseada em luta de classes, exploração e conflito entre capital e trabalho, simplesmente não organiza mais o imaginário das pessoas que
residem nas periferias. Patrão e empregado aparecem “no mesmo barco”, a retórica da exploração não encontra eco e quase todos se enxergam como “classe média”, reservando a ideia de
pobreza a quem não tem o que comer e onde morar.
No lugar das lutas de classes
instala-se um antagonismo mais difuso. Trata-se de “nós, cidadãos” contra “o governo”, entendido como bloco único que mistura prefeitura, governo estadual, governo federal,
Executivo e Legislativo. O Estado aparece como um grande cobrador de impostos,
ineficiente e distante, que “sufoca” quem trabalha e não devolve em serviços. Esse cenário favorece a narrativa
do Estado inimigo e do “gestor privado eficiente”.
Para partidos que ainda organizam a
base popular a partir da linguagem da exploração de
uma classe sobre a outra, a pesquisa da Fundação
Perseu Abramo funciona como um aviso. Falar em “burguesia”, “classe trabalhadora” ou “campo democrático
popular” para esse público
significa quase falar em outro idioma.
Liberalismo popular: onde a
direita já está
e a esquerda ainda não entrou
O estudo identifica algo que
poderia ser chamado de “liberalismo popular”. Trata-se de uma combinação de crença no mérito, adesão ao mercado como referência de eficiência e, ao mesmo tempo,
demanda por Estado forte em educação, saúde e políticas sociais. Não se
trata do neoliberalismo de think tank e planilha. É um liberalismo vivido na pele, que reorganiza a visão de mundo a partir da experiência concreta de
mobilidade social recente e de frustração com a crise.
A ascensão social é vista como resultado de coragem, esforço e disciplina. Barreiras existem, mas são
percebidas como superáveis por meio da “luta” individual, especialmente entre os mais
jovens. Nesse cenário, Lula, Silvio Santos e João Doria Jr aparecem lado a lado como ícones de
sucesso que “vieram de baixo”. Esse
alinhamento é revelador de como a narrativa da trajetória pessoal pesa mais do que o conteúdo
programático de governos e partidos.
Políticas
como Bolsa Família, Prouni e Fies são reconhecidas como políticas públicas importantes e necessárias. A lógica que as legitima, porém, é a da “igualdade de oportunidades” e não a de direitos sociais enquanto conquista
coletiva. Ao mesmo tempo, cotas tendem a ser rejeitadas quando soam como
desconfiança em relação à capacidade individual.
Para a direita, esse terreno é fértil. Basta combinar discurso de eficiência, antipolítica, com a fórmula “não sou político, sou gestor”, e promessa de ordem para
capturar um eleitorado que já vê o Estado como problema e o mercado como solução. Para a esquerda, o desafio é mais complexo. Trata-se
de defender políticas redistributivas sem demonizar a
centralidade do esforço individual na construção da identidade de quem experimentou algum grau de ascensão.
Família, religião e escola: vetores
esquecidos da disputa
Outro recado importante da pesquisa
é que a disputa de valores não se dá apenas na arena da política institucional. Ela ocorre também no tripé família, religião e
escola, frequentemente tratado com desdém por parte do campo
progressista. A família é descrita como “base de tudo” e chave da solução para problemas sociais.
Nesse enquadramento, a explicação da crise ética se desloca da esfera estrutural para a esfera privada.
A religião, especialmente neopentecostal, oferece aquilo que a política não entrega. Ela proporciona acolhimento, rede de
apoio, identidade e presença cotidiana no território. Pastores e obreiros entram na casa, ajudam no cotidiano, acompanham
a vida nas redes sociais dos filhos e garantem ao mesmo tempo pertencimento e
vigilância moral. Isso configura uma forma de
governança comunitária que a esquerda,
centrada em sindicatos enfraquecidos e movimentos fragmentados, não oferece hoje.
A escola aparece como instrumento
de mobilidade. A descrença no ensino público, porém, abre outra janela para a narrativa
privatizante. Escola particular é associada à qualidade e ao “direito de exigir”, enquanto a escola pública é vista como espaço em que “não se pode cobrar de ninguém”. A lógica é nítida. Tudo o que é público tende a ser percebido como “gratuito e ruim”, e tudo o que é pago tende a ser visto
como “melhor e mais exigível”.
Para estratégias de comunicação e organização política, isso significa que qualquer discurso que
ataque a “família tradicional”, ridicularize a religiosidade ou trate o desejo de escola privada como
mera alienação tende a ser rejeitado de imediato. O estudo
mostra que os fiéis não formam blocos homogêneos conservadores. Há tolerância maior do que supõe o senso comum em temas
de gênero e sexualidade, sobretudo entre jovens, além de muita desconfiança em relação à mercantilização da fé. Existe, portanto, espaço para diálogo. Esse diálogo, no entanto, não passa por confrontar a centralidade da fé e sim
por disputar sentidos dentro desse universo.
Antipolítica, mídia e o terreno do “gestor não político”
A pesquisa confirma a desmoralização generalizada da política institucional.
Expressões como “tudo sujo”, “tudo contaminado” e “tem que jogar tudo no lixo e começar de novo” são recorrentes. As pessoas que vivem na
periferia sabem que decisões políticas afetam diretamente suas vidas, seja pelo preço do ônibus, pela qualidade da escola ou pelo acesso
a programas sociais.
Nesse vazio de confiança, a ideia de um “partido único de gente do bem”, reunindo os “melhores” de todas as siglas, aparece como solução idealizada. Essa fórmula coincide com a
personalização da política e com o apagamento
das fronteiras ideológicas. É o cenário perfeito para figuras como João Doria se apresentarem como “não políticos” ou “gestores eficientes” que, por terem
enriquecido, “não precisam roubar”.
A mídia
tradicional ajudou a pautar o debate, sobretudo por meio de escândalos de corrupção e da Lava Jato, reforçando a associação quase mecânica entre política e roubo. O estudo
mostra que essa narrativa midiática ganha mais força onde há “vazio de políticas”. Em contextos em que políticas públicas chegam com qualidade, como na memória positiva dos CEUs da gestão Marta Suplicy, as
pessoas tendem a formular avaliações próprias, menos dependentes do enquadramento da imprensa.
Esse é um
ponto central para estrategistas e marqueteiros. Estratégia e comunicação sem lastro em experiência concreta tendem a se tornar ruído. O “fato político” que gera fidelidade não é o discurso sobre o programa, e sim o
equipamento, o serviço e a política pública que se materializam na vida cotidiana e
disputam, no concreto, o sentido de Estado e de “coisa pública”.
O que a pesquisa exige de quem
quer disputar a periferia
Não é mais possível falar com quem mora na periferia como se se
tratasse de um bloco homogêneo “pobre e coletivo”. O desejo de distinção, de trajetória singular e de
reconhecimento individual está no centro da
subjetividade. Atacar a ideia de meritocracia como se fosse apenas ideologia
reacionária é um erro político. O mérito organiza autoestima e identidade. A
disputa talvez seja entre um mérito puramente
individualista e um mérito ancorado em
oportunidades coletivas.
A crítica ao
Estado precisa ser incorporada, não negada. Reconhecer a
ineficiência, o abuso e a captura é condição para defender um Estado diferente, e não apenas um Estado maior. Famílias e igrejas ocupam hoje
o lugar que sindicatos e associações de bairro ocuparam em
outros momentos. Elas são centros de
sociabilidade, disciplina, assistência e proteção. Ignorá-las significa abrir mão de disputar metade da vida social.
A aposta exclusiva em identidades
ideológicas como “esquerda”, “progressismo” ou “campo democrático popular” tende a falar mais para quem já está dentro da bolha do que para quem organiza a visão de mundo por outras categorias.
Em síntese, o que a pesquisa mostra é que a periferia não se tornou simplesmente “de direita”. Ela passou a operar com um léxico liberal popular, no qual mérito, família, fé, consumo e desconfiança do Estado se tornam chaves de leitura do mundo. Quem quiser disputar esse eleitorado precisará reconstruir sua narrativa a partir dessa realidade. Não se trata de capitular diante da lógica mercantil, e sim de falar com quem vive sob essa lógica, e não apesar dela.


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