sábado, 13 de junho de 2026

O paradoxo da esquerda diante da periferia

 

Pesquisa da Fundação Perseu Abramo já apontava a ascensão de um liberalismo popular entre antigos eleitores da esquerda nas periferias urbanas de São Paulo.

Pesquisa realizada há dez anos sobre valores políticos nas periferias de São Paulo já revelava um paradoxo que a esquerda brasileira resiste em encarar. Boa parte de seus antigos eleitores passou a falar a linguagem da meritocracia, da desconfiança do Estado e da centralidade da família e da religião, sem, no entanto, se tornar neoliberal ou conservadora no sentido clássico.

O fim da gramática da esquerda

O primeiro choque é perceber que a gramática histórica da esquerda, baseada em luta de classes, exploração e conflito entre capital e trabalho, simplesmente não organiza mais o imaginário das pessoas que residem nas periferias. Patrão e empregado aparecem no mesmo barco, a retórica da exploração não encontra eco e quase todos se enxergam como classe média, reservando a ideia de pobreza a quem não tem o que comer e onde morar.

No lugar das lutas de classes instala-se um antagonismo mais difuso. Trata-se de nós, cidadãos contra o governo, entendido como bloco único que mistura prefeitura, governo estadual, governo federal, Executivo e Legislativo. O Estado aparece como um grande cobrador de impostos, ineficiente e distante, que sufoca quem trabalha e não devolve em serviços. Esse cenário favorece a narrativa do Estado inimigo e do gestor privado eficiente.

Para partidos que ainda organizam a base popular a partir da linguagem da exploração de uma classe sobre a outra, a pesquisa da Fundação Perseu Abramo funciona como um aviso. Falar em burguesia, classe trabalhadora ou campo democrático popular para esse público significa quase falar em outro idioma.

Liberalismo popular: onde a direita já está e a esquerda ainda não entrou

O estudo identifica algo que poderia ser chamado de liberalismo popular. Trata-se de uma combinação de crença no mérito, adesão ao mercado como referência de eficiência e, ao mesmo tempo, demanda por Estado forte em educação, saúde e políticas sociais. Não se trata do neoliberalismo de think tank e planilha. É um liberalismo vivido na pele, que reorganiza a visão de mundo a partir da experiência concreta de mobilidade social recente e de frustração com a crise.

A ascensão social é vista como resultado de coragem, esforço e disciplina. Barreiras existem, mas são percebidas como superáveis por meio da luta individual, especialmente entre os mais jovens. Nesse cenário, Lula, Silvio Santos e João Doria Jr aparecem lado a lado como ícones de sucesso que vieram de baixo. Esse alinhamento é revelador de como a narrativa da trajetória pessoal pesa mais do que o conteúdo programático de governos e partidos.

Políticas como Bolsa Família, Prouni e Fies são reconhecidas como políticas públicas importantes e necessárias. A lógica que as legitima, porém, é a da igualdade de oportunidades e não a de direitos sociais enquanto conquista coletiva. Ao mesmo tempo, cotas tendem a ser rejeitadas quando soam como desconfiança em relação à capacidade individual.

Para a direita, esse terreno é fértil. Basta combinar discurso de eficiência, antipolítica, com a fórmula não sou político, sou gestor, e promessa de ordem para capturar um eleitorado que já vê o Estado como problema e o mercado como solução. Para a esquerda, o desafio é mais complexo. Trata-se de defender políticas redistributivas sem demonizar a centralidade do esforço individual na construção da identidade de quem experimentou algum grau de ascensão.

Família, religião e escola: vetores esquecidos da disputa

Outro recado importante da pesquisa é que a disputa de valores não se dá apenas na arena da política institucional. Ela ocorre também no tripé família, religião e escola, frequentemente tratado com desdém por parte do campo progressista. A família é descrita como base de tudo e chave da solução para problemas sociais. Nesse enquadramento, a explicação da crise ética se desloca da esfera estrutural para a esfera privada.

A religião, especialmente neopentecostal, oferece aquilo que a política não entrega. Ela proporciona acolhimento, rede de apoio, identidade e presença cotidiana no território. Pastores e obreiros entram na casa, ajudam no cotidiano, acompanham a vida nas redes sociais dos filhos e garantem ao mesmo tempo pertencimento e vigilância moral. Isso configura uma forma de governança comunitária que a esquerda, centrada em sindicatos enfraquecidos e movimentos fragmentados, não oferece hoje.

A escola aparece como instrumento de mobilidade. A descrença no ensino público, porém, abre outra janela para a narrativa privatizante. Escola particular é associada à qualidade e ao direito de exigir, enquanto a escola pública é vista como espaço em que não se pode cobrar de ninguém. A lógica é nítida. Tudo o que é público tende a ser percebido como gratuito e ruim, e tudo o que é pago tende a ser visto como melhor e mais exigível.

Para estratégias de comunicação e organização política, isso significa que qualquer discurso que ataque a família tradicional, ridicularize a religiosidade ou trate o desejo de escola privada como mera alienação tende a ser rejeitado de imediato. O estudo mostra que os fiéis não formam blocos homogêneos conservadores. Há tolerância maior do que supõe o senso comum em temas de gênero e sexualidade, sobretudo entre jovens, além de muita desconfiança em relação à mercantilização da fé. Existe, portanto, espaço para diálogo. Esse diálogo, no entanto, não passa por confrontar a centralidade da fé e sim por disputar sentidos dentro desse universo.

Antipolítica, mídia e o terreno do gestor não político

A pesquisa confirma a desmoralização generalizada da política institucional. Expressões como tudo sujo, tudo contaminado e tem que jogar tudo no lixo e começar de novo são recorrentes. As pessoas que vivem na periferia sabem que decisões políticas afetam diretamente suas vidas, seja pelo preço do ônibus, pela qualidade da escola ou pelo acesso a programas sociais.

Nesse vazio de confiança, a ideia de um partido único de gente do bem, reunindo os melhores de todas as siglas, aparece como solução idealizada. Essa fórmula coincide com a personalização da política e com o apagamento das fronteiras ideológicas. É o cenário perfeito para figuras como João Doria se apresentarem como não políticos ou gestores eficientes que, por terem enriquecido, não precisam roubar.

A mídia tradicional ajudou a pautar o debate, sobretudo por meio de escândalos de corrupção e da Lava Jato, reforçando a associação quase mecânica entre política e roubo. O estudo mostra que essa narrativa midiática ganha mais força onde há vazio de políticas. Em contextos em que políticas públicas chegam com qualidade, como na memória positiva dos CEUs da gestão Marta Suplicy, as pessoas tendem a formular avaliações próprias, menos dependentes do enquadramento da imprensa.

Esse é um ponto central para estrategistas e marqueteiros. Estratégia e comunicação sem lastro em experiência concreta tendem a se tornar ruído. O fato político que gera fidelidade não é o discurso sobre o programa, e sim o equipamento, o serviço e a política pública que se materializam na vida cotidiana e disputam, no concreto, o sentido de Estado e de coisa pública.

O que a pesquisa exige de quem quer disputar a periferia

Não é mais possível falar com quem mora na periferia como se se tratasse de um bloco homogêneo pobre e coletivo. O desejo de distinção, de trajetória singular e de reconhecimento individual está no centro da subjetividade. Atacar a ideia de meritocracia como se fosse apenas ideologia reacionária é um erro político. O mérito organiza autoestima e identidade. A disputa talvez seja entre um mérito puramente individualista e um mérito ancorado em oportunidades coletivas.

A crítica ao Estado precisa ser incorporada, não negada. Reconhecer a ineficiência, o abuso e a captura é condição para defender um Estado diferente, e não apenas um Estado maior. Famílias e igrejas ocupam hoje o lugar que sindicatos e associações de bairro ocuparam em outros momentos. Elas são centros de sociabilidade, disciplina, assistência e proteção. Ignorá-las significa abrir mão de disputar metade da vida social.

A aposta exclusiva em identidades ideológicas como esquerda, progressismo ou campo democrático popular tende a falar mais para quem já está dentro da bolha do que para quem organiza a visão de mundo por outras categorias.

Em síntese, o que a pesquisa mostra é que a periferia não se tornou simplesmente de direita. Ela passou a operar com um léxico liberal popular, no qual mérito, família, fé, consumo e desconfiança do Estado se tornam chaves de leitura do mundo. Quem quiser disputar esse eleitorado precisará reconstruir sua narrativa a partir dessa realidade. Não se trata de capitular diante da lógica mercantil, e sim de falar com quem vive sob essa lógica, e não apesar dela.

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