Como conselhos nacionais prometem
transparência, mas consolidam mercados de prestígio que reforçam privilégios e
ocultam conflitos.
Quando se fala em conselhos nacionais, o
imaginário jurídico costuma reagir com um certo automatismo e apresentá-los
como soluções técnicas para aperfeiçoar o controle, aumentar a transparência e
modernizar instituições. No caso do Conselho Nacional dos Tribunais de Contas
(CNTC), porém, olhar apenas para esse discurso é perder de vista o que está em
jogo na disputa por cadeiras, prerrogativas e renome dentro das elites de
controle.
Desde 2007, sucessivas Propostas de
Emenda à Constituição vêm tentando criar um órgão nacional para supervisionar
os Tribunais de Contas, espelhado nos modelos do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Em comum, essas PECs
desenham conselhos dominados por insiders, como ministros, conselheiros,
auditores e membros do Ministério Público de Contas, deixando um espaço
residual para atores externos. A pergunta clássica “quem controla os
controladores?” ganha então uma nova camada e passa a incluir quem distribui
honra, prestígio e voz dentro desse pequeno círculo de controladores.
Moedas de renome e economias
da dádiva
A Antropologia oferece boas lentes para
entender esse jogo. Marcel Mauss mostrou como, em diversas sociedades,
presentes aparentemente voluntários são, na verdade, obrigações carregadas de
força simbólica, em que quem recebe precisa retribuir sob pena de perda de
honra. Transportando essa ideia para o mundo das burocracias de controle,
cargos, indicações e funções de confiança passam a ser vistos como dádivas,
presentes que criam vínculos duradouros entre elites políticas, associações
corporativas e carreiras de Estado.
Nos Tribunais de Contas, a reserva da
maioria das cadeiras dos conselhos a integrantes das próprias carreiras
funciona como um dispositivo de redistribuição de honra entre insiders. Listas
enviadas por entidades como Atricon, Ampcon, Abracom e ANTC ao Congresso,
sugerindo nomes para compor o CNTC, não são neutras, pois cada indicação traz a
chancela de “técnico”, “méritoso” ou “representativo” e reforça posições de
grupos específicos dentro da máquina de controle.
É aí que entra a ideia de moedas de
renome. Títulos, reputações e discursos de transparência e padronização operam
como bens simbólicos que circulam dentro das elites em troca de autonomia,
prerrogativas e manutenção de espaços de poder. De fora, o público vê conselhos
que prometem modernização; por dentro, eles funcionam como mercados de
prestígio.
Harmonia coerciva, paz
institucional para quem
Se a dádiva ajuda a explicar como cargos
e posições circulam, Laura Nader oferece outra peça importante ao analisar a
harmonia coerciva. Ao estudar comunidades indígenas e a transição, nos Estados
Unidos, para métodos de resolução alternativa de conflitos, ela mostra como a
retórica da concórdia, sintetizada em frases como “é melhor um acordo ruim do
que uma boa briga”, pode servir para deslegitimar o conflito aberto e empurrar
disputas para bastidores pouco visíveis.
Aplicada ao caso brasileiro, essa
leitura joga luz sobre a proliferação de conselhos nacionais como CNJ, CNMP e o
projeto de CNTC. Nas justificativas das PECs, conselhos aparecem como
mecanismos de paz institucional, coordenação, uniformização de jurisprudência e
reforço da confiança pública. Na prática, porém, suas competências e
composições revelam outra coisa e mostram arenas de gestão de conflitos
internos e de proteção de prerrogativas corporativas, nas quais denúncias,
divergências e crises são canalizadas para fóruns majoritariamente compostos
por membros das mesmas carreiras que deveriam ser controladas.
O resultado é um movimento de
pacificação. Problemas disciplinares, controvérsias sobre atuação e denúncias
de abuso tendem a ser tratados sob viés conciliatório, privilegiando ajustes
internos e acordos entre pares. A confrontação pública, com registro documental
e pressão democrática, cede lugar a soluções discretas em nome da estabilidade
institucional.
Isomorfismo, corporativismo
e accountability fraca
As PECs que tentam criar o CNTC revelam
um padrão de isomorfismo em relação ao CNJ e ao CNMP. Copia-se a arquitetura
institucional, mas mantém-se a lógica de participação de outsiders meramente
simbólica, controle social frágil e forte peso de carreiras jurídicas na
definição dos parâmetros de sua própria responsabilização.
Esse desenho reforça o caráter
corporativo dos conselhos. Órgãos que nasceram sob o signo da moralização e da
transparência acabam operando como espaços de negociação entre controladores e
controlados, onde se decide até onde vai e até onde não vai o alcance do
controle externo. O clientelismo institucional, nesse contexto, deixa de ser só
troca de favores individuais e passa a ser um regime de reciprocidade
assimétrica entre carreiras de controle e mundo político, mediado por moedas de
renome e economias de dádiva.
A combinação entre dádiva e harmonia
ajuda a explicar por que, mesmo diante de um discurso robusto de modernização,
os modelos de conselho nacional podem produzir accountability fraca. Em redes
em que todos devem algo a alguém, seja um cargo, uma indicação ou uma
deferência simbólica, torna-se mais custoso aplicar sanções duras contra pares
e aliados. Em arranjos que empurram conflitos para arenas internas, o ideal de
justiça cede lugar ao ideal de estabilidade e torna preferível um mau acordo
dentro do conselho a um bom escândalo na praça pública.
Uma agenda para olhar “para
cima”
Pensar o CNTC a partir da Antropologia
Jurídica é, em última análise, um convite a deslocar o foco: menos na retórica
de eficiência e transparência, mais nas economias morais e nas ideologias de
harmonia que estruturam a dominação simbólica nesse ramo da burocracia estatal.
Em vez de enxergar conselhos nacionais apenas como peças de engenharia
institucional, trata-se de vê-los como arenas em que renome, poder e
legitimidade são distribuídos de forma desigual e assimétrica.
Essa perspectiva abre caminho para investigações comparativas e etnográficas sobre conselhos nacionais e elites de controle. É importante perguntar quem circula por esses espaços, quais moedas simbólicas valem mais, que tipos de conflito são autorizados e quais são silenciosamente sufocados. Para quem se preocupa com democracia e responsabilização, olhar para cima, para os de cima, é condição para responder com mais precisão à pergunta que insiste em voltar: afinal, quem controla os controladores?


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