O Atlas da República, em O Malho, 1904.
Hey, hey
é ano eleitoral no Brasil
e o cofre já nem range —
arrombou de vez,
com senha, assinatura e sorriso de TV.
Vem chegando o caixa
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com perfume de legalidade,
alma quente,
e um jeitinho que cruza tribunais
como quem atravessa a rua.
Mas o golpe — ah, o
golpe —
vem mesmo é a galope,
não precisa mais de quartel:
usa gravata, gabinete e algoritmo,
e chama isso de vontade popular.
Do gabinete à praça,
o espetáculo migra:
político aparece cantando samba,
desafinando promessas na praça,
a vila vira palanque,
ponto de encontro do esquecimento,
onde todo mundo lembra só do amanhã
que nunca chega.
Promessas voam a
jato,
classe executiva da mentira,
e o negro vira cartaz outra vez:
sorriso alugado,
estatística conveniente,
corpo presente na foto
e ausente na partilha —
peça de campanha
no mercado das versões.
Todos perderam a
vergonha —
foi leiloada com o discurso,
em lote único,
arrematada por quem já sabia o resultado.
Ninguém parece temer
a justiça eleitoral,
senhora de passos lentos
e olhos vendados com papel timbrado.
Só quando cai um ou outro
— bode expiatório de ocasião —
cassado, condenado,
como se o sistema pedisse desculpa
sem dizer a quem.
A lógica é a mesma,
repetida como jingle:
muda o rosto, não muda o roteiro.
Por todos os lados
brotam
políticos de ocasião,
como praga em solo fértil,
cultivados à verba,
regados a silêncio.
Logo ali, entre
escândalos,
ajudam a fundar de novo a República —
essa eterna inauguração do nada,
um país que se reinventa
sem nunca se refazer.
Hey, hey,
bate palma, Brasil:
o espetáculo continua,
e o ingresso
já foi pago em impostos.
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