terça-feira, 12 de maio de 2026

O Presidente

 

No alto do Planalto,
onde as cúpulas pensam que são eternas,
o vidro treme.

A praça,
que aprendera a ser triângulo de poderes,
acorda estilhaçada:
bandeiras viram trapos,
vidraças sangram em silêncio,
marteletes discursam em nome do povo.

Mas o Presidente
não está ali.
Está longe, no barro de Araraquara,
onde a enxurrada escreve decretos na lama
e as casas desabam
sem pedir autorização.

Ele pisa poças,
ouve nomes que nunca entrarão em ata,
vê brinquedos boiando
como pequenas constituições afogadas.
Enquanto isso, em Brasília,
a vontade torpe veste verde,
se enrola na própria farda imaginária
e avança.

No palácio, a notícia chega
como sirene dentro do peito.
A Primeira-Dama,
entre uma sala e outra,
ouve a senha sussurrada
que vem de outro século: GLO.
Ela recusa com o grito inteiro do corpo:
“GLO não, é golpe!”,
como quem fecha, num só fôlego,
todas as portas da história.

Um ministro abre pastas invisíveis,
tira delas o cardápio constitucional
como quem oferece água no incêndio:
intervenção federal,
palavra que desce arranhando a garganta
mas ainda é lei,
não baioneta.

Então o céu se povoa.
Helicópteros começam a brotar
do horizonte de concreto,
cortando o ar como vírgulas
num parágrafo em estado de sítio.
Viaturas correm,
a Polícia Federal acende faróis
no asfalto perplexo,
snipers aparecem em telhados discretos,
silhuetas que escrevem, com miras vermelhas,
um perímetro em torno do corpo do Presidente.

É a cidade que arma, em segundos,
uma muralha de hélices e canos frios
para que um só corpo respire,
enquanto a praça, lá embaixo,
respira gás, pedra, lacre rompido.
Há uma coreografia urgente
entre o céu e o chão,
entre o homem que veio ver enchentes
e a enchente de ódio
que tenta arrastar o país.

Mais tarde se descobre
que o roteiro era maior que a praça:
não bastava quebrar vidro,
era preciso quebrar a espinha da República.
Na sombra dos gabinetes,
se desenha o silêncio forçado da Justiça,
a mordaça no tribunal
que gostavam de chamar de ativista.
Estava escrito, em tinta clandestina,
que o Presidente não voltaria,
que um ministro da suprema corte
seria calado para sempre,
que o vice desceria, sem escolta,
às notas de rodapé da barbárie.

O plano queria corpos
onde a política ainda insistia em palavras.
Queria transformar o centro do poder
num necrotério constitucional,
para então chamar isso de ordem,
de limpeza,
de começo.

Mas o Presidente estava em Araraquara,
no meio de ruas abertas em barro,
ouvindo histórias que nenhum general escuta.
O destino, ou o acaso,
ou o cálculo de quem cuida de agenda,
puxou o país alguns centímetros
para longe do abismo.

Os helicópteros,
as viaturas,
os snipers,
não foram metáfora:
foram o esqueleto armado da sobrevivência.
Ao redor de um corpo vivo
ergueu-se, às pressas,
um escudo de hélice e mira,
como se a República precisasse, de repente,
aprender a respirar por aparelhos.

Enquanto isso,
em algum gabinete ainda inteiro,
alguém rabisca uma versão oficial,
tenta reduzir o dia
a vandalismo de praça,
a excesso de paixão.
Esquece — por conveniência,
por medo,
por cumplicidade —
que no roteiro original
não era só vidro que deveria quebrar,
mas a própria ideia de futuro.

E um assessor, anos depois,
num bar qualquer de Florianópolis,
conta baixo que viu helicópteros,
viaturas, snipers,
que soube dos nomes na lista,
dos alvos marcados antes do tiro.
A história, ali, serve mais uma rodada
de detalhes que não cabem no telejornal.

Mas quem ouviu aquele relato
sabe que, por um triz,
o país quase coube
num caixão.

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