O resultado das
eleições” (O Malho, n. 24, 1903, p. 6)
Ai, ai, meu povo, o
que foi que aconteceu
Com a tal República Federativa do jangadeiro?
Todo mundo fala sério em discurso de roteiro,
Mas esse sério já nasceu com filtro e com letreiro.
Tem juiz de toga pop,
influencer de estação,
Dando aula no Instagram sobre ética e corrupção,
Assina sentença, posa, entrega opinião em HD,
Mas o prazo do processo segue sem data pra acontecer.
No Congresso tem de
tudo — é vitrine e é bazar,
Coach de patriotismo, fiscal pronto pra performar,
Cada emenda vira lance num leilão sem pudor,
“Deus, família e Pix” como dogma salvador.
O Centrão, velho
ofício, nunca perde a direção,
Chega cedo em qualquer governo, já com chave e caminhão,
Troca cargo, troca voto, ajusta lado conforme o pé,
Só não troca o velho vício de sentar no próprio café.
Tem patriota de
camisa verde-amarelo neon,
Que no susto pede ordem, mas foge do contracheque e do tom,
Grita “intervenção!” com fervor de ocasião,
Mas na fila do imposto dissolve a convicção.
E quando a realidade
aperta mais do que devia,
Tem gente tomando Ypê como cura e profecia,
Rezando pra ET salvar a pátria em operação,
Porque a Terra já cansou da própria administração.
A esquerda escreve
threads com rigor internacional,
Explica o mundo inteiro do balcão do bar virtual,
Cita Marx, Butler, Lenin, compõe tese e vitrine,
Mas quando vira política, a conexão sempre declina.
O mercado é o primo
sério, de planilha e de moral,
Se o juro oscila um ponto, entra em crise estrutural,
Se a fome cresce, chama isso de ajuste natural,
Desde que o lucro siga firme, crescente e triunfal.
Tem vazamento em
série, justiça de ocasião,
Áudio, dado e planilha viram espetáculo na mão,
Depois vem nota técnica, culpa de interpretação,
Mas o estrago já circula no zap da população.
Governador faz live,
prefeito corta inauguração,
Obra pela metade, mas completa na transmissão,
Enquanto o ônibus lota e falta ficha no hospital,
O povo paga em dobro por um serviço informal.
Na Suprema Corte,
votos viram monumento em PDF,
Latim, pop e doutrina em desfile STF,
Cada qual com sua tese, seu estilo e seu tour,
E o jurisdicionado esperando algum “por favor”.
Os militares
observam, com silêncio estratégico,
“Não estamos no jogo”, mas mantêm tom pedagógico,
Sempre deixam o recado, meio vago, meio urgente:
“Se o sistema falhar, convoquem a gente.”
Empresário solidário
faz campanha emocional,
Distribui cesta básica com branding institucional,
No balanço do ano, tudo entra como dedução,
Caridade com contrato, incentivo e projeção.
Influencer da
política vende curso de insurreição,
“Em sete módulos você muda toda a nação”,
Tem certificado, bônus, pix e validação,
Rebeldia com cashback e prazo de expiração.
Ai, ai, meu povo, o
que foi que aconteceu
Com essa política em modo espetáculo de cabaré?
Entre o delírio e o decreto, a fé virou solução,
E o absurdo já disputa eleição.
E no meio do ruído,
segue o mesmo freguês:
Acorda cedo, pega fila, trabalha o mês inteiro outra vez,
Vota, reza — pra Deus, pra ET ou pra qualquer salvação —
E ri pra não chorar da própria condição.

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