quinta-feira, 9 de julho de 2026

Diárias de luxo: quanto custam as viagens dos deputados gaúchos ao contribuinte

Joel Vargas/ALRS

Em 2025, deputados do RS gastaram mais de R$ 2,7 milhões em diárias nacionais e internacionais, sem relatório público que comprove benefícios ao estado.

Em 2025, os deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul consumiram mais de R$ 2,7 milhões em diárias nacionais e internacionais, sem que haja transparência mínima sobre quais políticas públicas efetivas derivaram desses gastos.

Pelo Portal da Transparência, o total pago aos parlamentares alcança cerca de R$ 2,17 milhões, em 2.118,5 diárias nacionais. Cada deputado pode receber até 84 diárias por ano, sendo até 10 internacionais, o que indica que parte da bancada operou no teto máximo previsto pela norma interna da Assembleia Legislativa. As diárias internacionais somaram aproximadamente R$ 598 mil, em 265 diárias pagas, com valores que chegam a US$ 300 na América do Sul e € 400 para Europa, África, Ásia e Oceania, por dia de viagem.

A justificativa oficial é que as diárias cobrem deslocamentos para “missões parlamentares”, reuniões, seminários e agendas institucionais, mas nem o portal da transparência nem os perfis parlamentares informam ao cidadão quais resultados mensuráveis essas viagens produziram para o contribuinte gaúcho. Em um ano marcado por crise fiscal e necessidade de reconstrução pós-enchente, o Legislativo escolheu preservar uma rotina de deslocamentos caros, sem vincular os gastos a metas claras de melhoria em serviços como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura ou proteção social.

Com base no portal da transparência, o ranking dos 10 parlamentares que mais receberam diárias, somando diárias nacionais e internacionais, é o seguinte:


Deputado

Diárias nacionais

Diárias internac.

Valor total aproximado*

1

Pedro Pereira (PSD)

84,0

7,0

R$ 96,8 mil

2

Silvana Covatti (PP)

58,0

10,0

R$ 92,2 mil

3

Rodrigo Lorenzoni (PP)

52,0

10,0

R$ 86,8 mil

4

Sergio Peres (Republicanos)

60,0

8,0

R$ 70,1 mil

5

Gerson Burmann (PDT)

61,0

0

R$ 49,3 mil (só nacionais)

6

Guilherme Pasin (PP)

42,0

10,0

R$ 74,4 mil

7

Elton Weber (PSD)

64,5

0

R$ 53,6 mil (só nacionais)

8

Elizandro Sabino (Republicanos)

55,5

10,0

R$ 82,6 mil

9

Marcus Vinícius (PP)

44,0

7,0

R$ 63,9 mil

10

Luciano Silveira (MDB)

45,0

0

R$ 39,2 mil (só nacionais)

O dado mais eloquente é que nenhum desses parlamentares recolheu diárias, todas foram integralmente usadas, o que reforça a sensação de que o mecanismo se transformou em complemento automático de remuneração, e não em recurso excepcional para situações em que a presença física do deputado é indispensável.

Quando se confronta esse mapa de gastos com os perfis oficiais da 56ª Legislatura, o contraste é evidente. Deputados que se apresentam como defensores da “responsabilidade fiscal”, do “respeito ao dinheiro público” ou da “redução do tamanho do Estado” aparecem entre os campeões de diárias, desfrutando de uma prerrogativa pouco controlada justamente em áreas como viagens internacionais e agendas em outros estados.

Há também casos em que o discurso é de “mandato municipalista”, centrado em infraestrutura, saúde ou agricultura familiar, mas a rotina de deslocamentos pagos pela Assembleia se concentra em viagens que não têm resultados claramente associados a um hospital construído, uma rodovia entregue ou uma política social implementada no RS.

O desenho atual da política de diárias é permissivo: autoriza até 84 diárias por ano para cada deputado, com 10 internacionais e regra que admite até cinco viagens para países do Mercosul, desde que aprovadas pela Comissão e pela Mesa. Mas não exige que o parlamentar publique relatório detalhado da missão, nem que demonstre o impacto da viagem sobre a formulação de leis, o controle de gastos do Executivo ou a melhoria de serviços públicos.

Sem essa contrapartida, as diárias se convertem em benefício corporativo típico de uma elite política blindada, distante da realidade de servidores e cidadãos que arcam com cortes, congelamentos salariais e precarização de políticas de base. Em termos de accountability, a Assembleia continua tratando deslocamentos como assunto interno, quando deveriam ser vistos como investimentos públicos cuja legitimidade depende de comprovação de retorno.

A consequência é que o contribuinte gaúcho paga por um Parlamento que viaja muito, gasta alto com diárias e, ao mesmo tempo, não oferece evidências de que essas viagens reduzem filas de hospitais, melhoram a qualidade das escolas ou aceleram obras de infraestrutura essenciais. A pergunta que fica é simples: até quando o Rio Grande do Sul aceitará financiar diárias de luxo sem exigir que cada passagem emitida se traduza em política pública real?

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