“Os Guerreiros”, de Bruno Giorgi
No Planalto, a fumaça não vem de canhão:
sobe dos autos, das notas, dos celulares,
dos corredores onde a República
aprendeu a falar em off.
A polícia dispara um relatório —
papel que atravessa mármores,
atinge a relatoria,
instala a suspeição
no peito blindado do Supremo.
Não há sangue na toga,
mas há pólvora na assinatura.
Numa sala fechada,
a Constituição perde o silêncio:
vozes de ministros, frases calculadas,
um encontro sem ata para a história,
mas não sem ouvidos.
Vaza a reunião, e cada palavra
vira prova, versão, ameaça,
espelho quebrado da confiança.
Um sai — ou é retirado
pela geometria impiedosa das aparências.
Outro recebe os papéis,
outro surge entre mensagens e suspeitas,
nomes que circulam no fio invisível
entre inquérito e denúncia.
Numa crise, até a negativa
ganha estatuto de manchete.
No Senado, o impeachment é convocado
como tambor de uma guerra sem quartel:
não se derruba apenas um ministro,
testa-se a altura de cada Poder,
mede-se quem vigia, quem reage,
quem pode acusar sem ser acusado.
E o Ministério Público,
chamado a separar fato e interesse,
é puxado ao centro do redemoinho:
quem fiscaliza também precisa explicar
seus passos, seus vínculos, seus silêncios,
quando a política transforma procedimento
em munição.
É ano eleitoral —
e o país inteiro parece uma urna aberta
antes da hora:
cada escândalo pede voto,
cada vazamento escolhe um lado,
cada silêncio é lido como aliança.
Brasil: república de arquivos,
áudios, dossiês e versões;
país em que a notícia chega algemada
ao tribunal da torcida.
Não há tanques na Praça dos Três Poderes.
Há algo mais brasileiro e mais perigoso:
instituições armadas de desconfiança,
combatendo sob a bandeira da legalidade,
enquanto o povo, entre o espanto e o cansaço,
assiste à Guerra Fria Institucional.

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