Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre alerta para a ascensão do fascismo como ameaça à democracia; única solução é frente ampla de partidos políticos.
A recente Conferência
Internacional Antifascista, realizada em Porto Alegre, reuniu partidos
políticos, pensadores, ativistas, movimentos sociais e diversos segmentos da
sociedade civil, representados em delegações de mais de 30 países, para alertar
sobre o avanço do fascismo em escala global.
O evento, promovido por diversas
entidades e organizações, destacou como crises contemporâneas fomentam regimes fascistas.
O filósofo e sociólogo grego Nicos Poulantzas define o fascismo como uma forma
específica de regime político dentro do Estado capitalista de exceção, que
surge em momentos de crise.
Portanto, o fascismo não é um
fenômeno isolado, ocorrido apenas na Itália e na Alemanha, mas uma
possibilidade recorrente inerente ao sistema de produção capitalista, quando crises
são terrenos férteis para mudanças que podem deslocar a sociedade para regimes
autoritários.
O Fenômeno da Clivagem
O desenvolvimento do fascismo ocorre
devido ao fenômeno da clivagem, definido pelo psicanalista alemão Wilhelm Reich
como a divisão psicossocial entre a situação econômica objetiva das massas e a
consciência subjetiva (ideologia). Essa divisão explica como as classes média e
trabalhadora, empobrecidas por crises econômicas, não se revoltam contra o
sistema. Pelo contrário, aderem ao fascismo devido a fatores que atuam no campo
do subjetivo humano, bloqueando a consciência revolucionária. É como se as
necessidades materiais apontassem para a esquerda e as estruturas emocionais
para a direita. Essa clivagem permite ao fascismo mobilizar e cooptar as
massas, iniciando o processo de dominação social.
As Crises Contemporâneas
Se, em 1920, a Europa estava em
chamas no pós-guerra, com crise do poder colonial e menor participação no
mercado mundial, em 2008 explode uma crise econômica global impulsionada pela
quebra do sistema imobiliário americano. Desemprego e inflação assombram uma
União Europeia paralisada pelo euroceticismo. Na Alemanha, França, Itália e
Espanha, cresce a preocupação com imigrantes e refugiados, especialmente com a
possibilidade de votarem, alterando substancialmente o conceito de democracia.
Na América, não é diferente. Nos
Estados Unidos, Donald Trump implantou a política do ICE, um verdadeiro
"caça às bruxas" contra imigrantes. Na Argentina, Javier Milei criou
a Agência de Segurança Migratória, transferindo o controle para o Ministério de
Segurança e intensificando operações em periferias para identificar
estrangeiros irregulares ou com antecedentes criminais. No Brasil, o fascismo
ressurge na esteira do bolsonarismo, caracterizado pelo ódio ao diferente, ao
socialismo, à ciência, à cultura, à imprensa e por ataques sistemáticos à
democracia e suas instituições.
Características do Fascismo e do
Neofascismo
As literaturas alemã e italiana
apontam nacionalismo, militarismo e racismo como elementos característicos do
fascismo, com destaque para o racismo como marca proeminente. Contudo, como
fenômeno recorrente, o fascismo não assume as mesmas formas históricas e
sociais. A imensa desigualdade social, a concentração de renda e a estagnação
econômica formam o caldo cultural perfeito para o que hoje se denomina
neofascismo.
As características marcantes do
neofascismo são a tentativa de dominação de: 1) aparelhos ideológicos; 2)
burocracia jurídica; 3) partidos políticos; 4) instituições repressivas e
militares; e 5) órgãos de controle fiscal e orçamentário. Exemplos incluem o
regime fascista espanhol, com predominância da Igreja e do aparelho repressivo
militar; o italiano, com ênfase no partido e no militarismo; e o alemão, com
predominância inicial do partido e da polícia política, que depois se espalhou
pelas forças armadas e serviços de inteligência.
Condições Históricas para o
Fascismo
Como fenômeno recorrente, o
fascismo requer um estado de coisas para o seu desenvolvimento: 1)
neutralização das forças políticas e da burocracia jurídica; 2) empobrecimento
da classe média, com derrotas sucessivas dos movimentos sociais e da classe
trabalhadora; 3) existência de um bloco político hegemônico que vê no fascismo
um instrumento para impor pautas; e 4) dominação do aparelho do Estado. A
última etapa é a mais importante, pois permite ao regime se impor. No Brasil,
essa fase não se concretizou devido à resistência de forças políticas
democráticas e da Suprema Corte.
O Caso Brasileiro
Marco no cenário político, as
manifestações de 2013 ainda repercutem. De um lado, aumentaram a
representatividade de negros, feministas, LGBTQIAPN+ e juventude, sobretudo na
esquerda. De outro, despertaram o que há de mais podre na política nacional:
uma extrema direita fascista adormecida desde os anos de chumbo de 1964.
As camisetas da Seleção na
Avenida Paulista, logo após as Jornadas de Junho, não sinalizaram uma tomada de
consciência da classe média e da elite em prol de um projeto de desenvolvimento
nacional. Elas representaram a negação de um movimento de insatisfação popular
contra o sistema, que deveria ser abafado em benefício do establishment.
Óbvio: a sociedade brasileira é
antidemocrática, estruturalmente autoritária, oligárquica, hierárquica e
excludente. É marcada por todas as formas de preconceito que naturalizam
desigualdades socioeconômicas, diferenças étnicas (vistas como hierarquias raciais),
preconceitos religiosos e de gênero, além de violências visíveis e invisíveis,
como machismo, racismo, homofobia e misoginia.
Nesse contexto, a
extrema direita, representada por setores do bolsonarismo, ajustou-se
perfeitamente à estrutura social do país e a aprofundou. Não se trata de um
fenômeno político para racionalizar e moralizar o Estado, mas da expressão do
fascismo no Brasil. Sua função é promover a desintegração da democracia e de
suas instituições, dando sobrevida ao protagonismo conservador de militares,
religiosos e outsiders.
A única forma de frear a ascensão do fascismo é a formação de uma frente ampla de partidos políticos, a exemplo da Europa, especialmente na Espanha, onde coalizões democráticas e progressistas uniram esquerda, centro, setores da direita e movimentos sociais para conter o avanço da extrema direita. No Brasil, essa estratégia surge como imperativo urgente para neutralizar o bolsonarismo e preservar a Democracia e suas instituições.

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