domingo, 26 de julho de 2026

Enchentes no Rio Grande do Sul revelam o custo do improviso

O debate sobre cheias no Estado precisa sair da comoção e entrar no terreno das decisões duras

As enchentes recentes no Rio Grande do Sul voltaram a expor uma questão que o poder público brasileiro costuma deixar para depois. Como montar uma política séria de prevenção à inundação? O problema não é só técnico. Envolve instituições, orçamento, disputa eleitoral e capacidade estatal de antecipar risco antes que a água suba.

O debate público precisa abandonar a ilusão de que existe uma solução mágica. O que países que convivem há décadas com esse tipo de ameaça fizeram foi reunir respostas diferentes, de acordo com seu território, seus riscos e sua capacidade de gestão. É essa combinação que pode enriquecer a resposta gaúcha. O RS não precisa escolher entre engenharia pesada, drenagem urbana inteligente e soluções baseadas na natureza. Precisa articular essas frentes dentro de uma política contínua, com comando claro, financiamento estável e cobrança social permanente.

A experiência da Holanda é emblemática. Lá, a proteção contra a água não aparece como obra extraordinária, mas como rotina de Estado. Diques, comportas, bombas, canais, monitoramento e manutenção compõem um sistema que exige vigilância diária. A lição holandesa é simples. Não basta erguer barreiras. É preciso administrar o território com a consciência de que a água sempre buscará seu espaço. Em um estado como o RS, especialmente na Região Metropolitana de Porto Alegre, essa mentalidade é decisiva. Obras isoladas pouco resolvem sem planejamento permanente e manutenção rigorosa.

O Japão oferece outra referência. Em vez de confiar apenas em canais superficiais, o país desenvolveu sistemas subterrâneos de desvio e reservação capazes de absorver volumes enormes de água em eventos extremos. Trata-se de engenharia de alta complexidade, pensada para metrópoles densas, impermeabilizadas e expostas a chuvas intensas. Essa lógica pode inspirar o RS nas áreas urbanas mais vulneráveis, onde a simples canalização já não acompanha a força dos eventos climáticos. Túneis de contenção, reservatórios de detenção e estruturas de amortecimento podem ser fundamentais, desde que venham acompanhados de boa gestão e manutenção.

Já o conceito de cidade-esponja amplia o debate para além da obra dura. Ele propõe que a própria cidade absorva parte da água da chuva por meio de pavimentos permeáveis, jardins de chuva, telhados verdes, praças alagáveis e áreas de retenção. Em vez de escoar a água depressa, como faz o urbanismo tradicional, a cidade-esponja procura segurar, infiltrar e reutilizar. O modelo é especialmente relevante porque enfrenta um problema estrutural do RS, a impermeabilização crescente do solo, resultado de décadas de ocupação desordenada e política urbana equivocada.

No Vale do Taquari, o eixo principal precisa ser o alerta precoce, o monitoramento hidrológico e a evacuação rápida. Há territórios em que não faz sentido imaginar que todas as cheias serão contidas por grandes obras. Nesses casos, a prioridade deve ser salvar vidas, reduzir danos e reorganizar a ocupação do solo. Sirenes, sensores, boletins em tempo real, rotas de fuga e protocolos claros de emergência são tão importantes quanto obras de contenção. Quando a cheia avança rápido, o que separa proteção de tragédia é a antecipação.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas técnica e entra no campo político. A prevenção de enchentes depende de decisão pública, e decisão pública depende de disputa eleitoral, prioridade orçamentária e pressão social. Governos gostam de inaugurar obras, mas tendem a negligenciar aquilo que não rende foto. Manutenção, mapeamento de risco, fiscalização do uso do solo e modernização da defesa civil costumam ficar em segundo plano. Pesquisadores, universidades, órgãos de controle, movimentos sociais, jornalistas e entidades da sociedade civil precisam ocupar esse espaço de cobrança antes da próxima tragédia, e não apenas depois dela.

As eleições deveriam servir justamente para isso. Cobrar compromissos concretos. Prefeitos, governadores e parlamentares precisam dizer qual modelo de drenagem pretendem adotar, quais áreas serão protegidas com obras estruturais, onde entram soluções baseadas na natureza, quais comunidades precisam ser reassentadas, quem fará a manutenção e quem fiscalizará as metas. Sem resposta objetiva, o discurso vira administração da memória do desastre.

O RS tem diante de si a chance de transformar uma dor histórica em virada institucional. Mas isso exige maturidade pública. Exige abandonar a lógica do improviso, da reação tardia e da promessa eleitoreira. Exige aprender com a Holanda a importância da governança hídrica contínua, com o Japão a força da engenharia subterrânea e com a cidade-esponja a necessidade de redesenhar o espaço urbano para conviver com a água, e não apenas combatê-la.

A enchente não é só o momento em que o rio transborda. É também o momento em que o Estado revela seus limites. E talvez seja exatamente por isso que a resposta precise ser maior do que a tragédia: mais técnica, mais política, mais institucional e mais honesta com o futuro, porque a conta final, em bilhões de reais, quem paga é o contribuinte, e quando a omissão se agrava, paga também com a própria vida.

Medidas para o RS

  • Reforçar e elevar diques, comportas e casas de bombas em Porto Alegre e no entorno do Guaíba, com revisão de pontos de falha e redundância elétrica e mecânica.
  • Ampliar o sistema de alerta hidrológico no Vale do Taquari, com mais estações, modelagem em tempo real e sirenes em áreas urbanas e rurais de evacuação difícil.
  • Implantar zonas de retenção, parques de inundação e pavimentos permeáveis em áreas urbanas, seguindo o conceito de cidade-esponja, para reduzir picos de escoamento superficial.
  • Fazer o mapeamento fino de risco, com reassentamento progressivo de famílias em cota crítica e proibição de nova ocupação nas faixas de inundação recorrente.
  • Criar um plano operacional unificado entre Defesa Civil, prefeituras, Estado e concessionárias, com protocolos automáticos de resposta, evacuação e restabelecimento.

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