segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Quando a fé entra na urna

 

Da mobilização católica na Constituinte de 1933 à controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida em 2026, a religião nunca foi um detalhe na história eleitoral brasileira. Ela não explica sozinha o voto, mas ajuda a definir os afetos, os receios e as fronteiras morais da disputa

O Brasil é um Estado laico, mas jamais foi um país eleitoralmente indiferente à religião. A separação constitucional entre Estado e igrejas não eliminou da política as crenças, os valores, os símbolos e as redes de influência que atravessam a vida religiosa brasileira. Ao contrário, em períodos de maior tensão moral ou de campanhas muito polarizadas, a fé costuma sair do plano privado e entrar de vez na arena pública.

Os números ajudam a explicar por quê. Segundo o Censo 2022, 100,22 milhões de brasileiros se declararam católicos, o equivalente a 56,7% da população com 10 anos ou mais. Embora o catolicismo tenha perdido participação relativa nas últimas décadas, ele continua sendo a maior identidade religiosa do país, ao lado de um segmento evangélico numeroso, organizado e cada vez mais relevante na política.

Religião, porém, não é um bloco eleitoral automático. Católicos votam de formas diferentes entre si. O mesmo vale para evangélicos, espíritas, adeptos de religiões de matriz africana e pessoas sem religião. O que a história demonstra é outra coisa. Quando campanhas conseguem transformar fé, valores ou símbolos sagrados em linguagem política, podem deslocar prioridades, ativar medos e alterar a correlação de forças.

Da Liga Católica à Constituinte

Um dos primeiros episódios marcantes ocorreu na eleição de 1933, convocada para formar a Assembleia Nacional Constituinte após a Revolução de 1930. A Igreja Católica, então empenhada em recuperar espaço público depois da separação formal entre Igreja e Estado instituída pela República, organizou a Liga Eleitoral Católica.

A estratégia era objetiva. A Liga recomendava ao eleitorado candidatos comprometidos com uma agenda católica, que incluía o ensino religioso e posições conservadoras em temas de família. A operação teve êxito. A maioria dos candidatos apoiados pela entidade foi eleita, e parte importante de suas reivindicações encontrou espaço na Constituição de 1934.

Não se tratava de uma eleição presidencial decidida por uma polêmica religiosa de última hora. Era algo mais estruturado. Uma instituição religiosa buscava formar maioria legislativa e influenciar o desenho constitucional do país. A lição daquele momento permanece atual. Religião pesa mais quando deixa de ser apenas convicção individual e se transforma em organização, rede e agenda pública.

A ascensão evangélica e o voto moral

Outro ponto de inflexão veio com a redemocratização. Nas eleições de 1986, que escolheram o Congresso Constituinte responsável pela Constituição de 1988, igrejas evangélicas ampliaram sua presença institucional. A chamada bancada evangélica passou de 14 deputados federais eleitos em 1982 para 33 em 1986, acompanhando tanto o crescimento demográfico desse segmento quanto sua maior disposição de disputar o poder político.

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta após a ditadura, a religião entrou na disputa sob a forma de temor e desinformação. Setores evangélicos foram mobilizados contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva a partir da ideia de que uma vitória da esquerda poderia ameaçar a liberdade das igrejas ou implantar um projeto ateu e hostil à fé. Pesquisas sobre o período registram a resistência de parte do eleitorado evangélico a Lula e o apoio de lideranças religiosas a Fernando Collor.

A eleição não pode ser resumida a isso. Collor venceu por uma combinação de fatores, como a imagem de renovação, a comunicação de massa, a fragmentação do primeiro turno e a forte exposição televisiva. Mas o caso mostrou a eficácia política de um recurso que continuaria a aparecer nas décadas seguintes. Bastava apresentar a disputa eleitoral como uma escolha entre a preservação da fé e uma suposta ameaça moral.

2010: o aborto no centro da eleição

Nenhuma eleição presidencial brasileira recente tornou a religião tão visível como a de 2010. A disputa entre Dilma Rousseff e José Serra, com Marina Silva como terceira força no primeiro turno, foi atravessada pelo debate sobre aborto, família e valores religiosos.

Dilma, candidata apoiada pelo então presidente Lula e favorita nas pesquisas durante boa parte da campanha, passou a enfrentar uma ofensiva intensa de setores católicos e evangélicos. Discursos, vídeos, panfletos, correntes digitais e manifestações de lideranças religiosas associaram sua candidatura à legalização do aborto e a uma agenda moralmente permissiva.

O resultado foi a transformação de uma pauta que antes ocupava espaço restrito no debate político em um dos centros da campanha. O aborto tornou-se uma peça central da disputa presidencial de 2010, justamente por articular religião, moral e política.

A pressão foi suficiente para obrigar Dilma a reposicionar sua comunicação pública. A candidata divulgou carta aos cristãos, declarou-se contrária à mudança na legislação sobre aborto e buscou neutralizar a desconfiança de eleitores religiosos. José Serra, por sua vez, procurou capturar o espaço aberto pelo debate moral, ainda que também precisasse evitar uma imagem excessivamente sectária.

Dilma terminou o primeiro turno com 46,9% dos votos válidos, contra 32,6% de Serra. Marina Silva obteve 19,3%. O segundo turno, que parecia improvável meses antes, tornou-se necessário.

Seria impreciso, no entanto, atribuir o segundo turno apenas à questão religiosa. Estudos sobre a eleição indicam que a controvérsia do aborto afetou a campanha, especialmente entre segmentos religiosos, mas também apontam o impacto de escândalos políticos, da mudança de cenário no fim da disputa e da própria força eleitoral de Marina. A conclusão mais responsável é que 2010 não foi apenas a eleição do aborto. Foi o momento em que pautas morais de inspiração religiosa se consolidaram como instrumento nacional de campanha presidencial.

Ali se fixou um padrão que se repetiria. Pautas religiosas e morais podem não decidir sozinhas quem vence, mas são capazes de alterar o tom da eleição, impor recuos, obrigar candidaturas a produzir sinais de fé e reorganizar alianças eleitorais.

2018 e 2022: a religião como identidade política

Em 2018, esse padrão ganhou outra dimensão. Jair Bolsonaro construiu uma linguagem política diretamente ligada ao conservadorismo cristão, com referências a Deus, à família, ao combate à chamada ideologia de gênero e à defesa de valores tradicionais. O apoio evangélico foi um dos pilares de sua vitória, embora não explique, isoladamente, o resultado eleitoral.

Em 2022, a religião permaneceu no centro. Bolsonaro conservou ampla preferência entre evangélicos, enquanto Lula obteve melhor desempenho entre católicos e entre pessoas sem religião. A campanha foi marcada por disputas sobre fechamento de igrejas, liberdade religiosa, aborto e costumes, muitas vezes sustentadas por conteúdos falsos ou distorcidos. O próprio fato de Lula ter divulgado uma carta dirigida aos evangélicos revelou o peso político que o segmento havia adquirido.

O dado decisivo é que o voto religioso não funciona como uma sentença. Bolsonaro teve maioria entre evangélicos em 2022, mas Lula venceu a eleição. A religião influencia preferências e estratégias, mas convive com renda, emprego, inflação, rejeição, avaliação de governo, território, raça, gênero e trajetória partidária. Uma campanha que ignore a fé perde parte do país. Uma análise que reduza o país à fé perde quase tudo o mais.

A disputa por Nossa Senhora Aparecida

É nesse contexto que deve ser lida a atual polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Nos últimos dias, circulou nas redes a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de padroeira do país. A Justiça Eleitoral inicialmente determinou a remoção de publicações relacionadas ao fato. Depois, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, anulou a decisão e determinou o restabelecimento das publicações, com fundamento na liberdade de expressão e na liberdade religiosa.

O episódio tem importância política. Ele mostra como um símbolo religioso de alcance nacional pode transformar-se em combustível eleitoral quase instantaneamente. A disputa não é apenas sobre uma lei ou uma publicação. É sobre pertencimento, identidade e a possibilidade de se apresentar o adversário como hostil a algo profundamente incorporado à memória afetiva de milhões de brasileiros.

O monitoramento de redes reportado pela Folha de São Paulo mostra que o tema da padroeira deslocou, ao lado das apostas esportivas, a atenção da reta final da campanha. A controvérsia cresceu especialmente no X e ampliou sua circulação depois das decisões judiciais. É o efeito Streisand, um fenômeno conhecido dos ambientes digitais: a tentativa de censurar um conteúdo pode, paradoxalmente, aumentar seu alcance.

Há, ainda, um dado eleitoral relevante. No recorte por religião da pesquisa BTG/Nexus, realizada entre 25 e 27 de setembro, Lula aparece com 50% das intenções de voto entre católicos, contra 26% de Flávio Bolsonaro. Entre evangélicos, a relação se inverte. Flávio tem 50%, e Lula, 31%.

No segundo turno, o contraste permanece. Lula marca 52% entre católicos, diante de 39% de Flávio. Entre evangélicos, Flávio alcança 57%, e Lula, 35%. A pesquisa registra que os católicos representaram 50% da amostra e os evangélicos, 28%. A Nexus menciona os acontecimentos recentes ao apresentar os dados, mas não é possível atribuir a eles, isoladamente, as oscilações observadas nem afirmar que essas diferenças permanecerão até a eleição. Pesquisa revela tendências e diferenças entre grupos, mas não prova, por si só, causalidade. A controvérsia sobre a padroeira pode mobilizar identidades, ampliar rejeições ou reforçar convicções já existentes. Não é possível afirmar, contudo, que ela definirá a escolha do eleitorado.

A urna não é um altar

A história brasileira recomenda duas conclusões simultâneas. A primeira é que religião importa. Ela organiza comunidades, oferece vocabulário moral, cria lideranças, ativa emoções e pode alterar o curso de uma campanha. Ignorá-la é não compreender uma parte decisiva da sociedade brasileira.

A segunda é que o eleitor não cabe em um púlpito. Católicos não são monolíticos. Evangélicos tampouco. A adesão religiosa não cancela interesses materiais, experiências de vida, preferências ideológicas ou avaliações concretas de governo.

A urna não é um altar. Mas, em momentos decisivos, a política sabe muito bem como entrar nele.


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